Não vamos esquecer 


Não podemos esquecer. Não vamos esquecer o que se passou no dia 15 de Outubro de 2017.

Ninguém que viveu o terror do fogo se vai esquecer daquela noite. E nós? Poderão as nossas vidas seguir em frente? Ficou o nosso dia-a-dia abalado por ter ardido Portugal? 

Queremos que não chegue o dia em que, passada a voracidade das notícias, a intensidade das redes sociais, o impacto do choque, o país se esqueça daquele dia.” Daquelas pessoas. Queremos que a solidariedade que se tem sentido neste mês que passou (já? só?) se mantenha até à última árvore re-plantada. Até à última telha da última casa. Até termos a certeza que, por ali, já se consegue dormir. 

“Temos medo que qualquer dia se esqueçam de nós.” 

Então temos andado, desde esse dia a tentar perceber o que fazer para ajudar à reconstrução da vida das pessoas que tanto, ou tudo, perderam. Traçar um caminho. 

Não tem sido fácil, perceber como ajudar. Porque há umas coisas para já. Outras para ontem. Coisas que têm de esperar. Há umas para empresas. Outras para o governo. Outras ainda para particulares. Há o que já não é preciso. E há o que é mais difícil.

Depois há as dúvidas. Por onde ir? Por onde começar? O que fazer? Porque todos sabemos que ninguém se quer esquecer. 
Depois de lá ter passado uns dias, como psicóloga voluntária acompanhada por outras voluntárias, regressámos com algumas ideias e, embora pense que não seja nada de novo, vou partilhar:

Surgiu-nos que, uma forma eficaz de contribuir e de estar activamente envolvidos seria centralizar as ajudas e esforços numa freguesia. Organizar um grupo de trabalho articulado directamente com o Presidente de Junta e criar relações próximas com os habitantes. Com foco nas necessidades concretas. Pessoa a pessoa. Tornar regulares as visitas ao local. Criar um compromisso com cada um. Comprometermos-nos a não esquecer delas. Nem daquela noite. Nem do que perderam. E muito menos de que passaram naquele dia. 

Então, por ter sido a freguesia onde estivemos, criámos um grupo de trabalho Não vamos esquecer direccionado para duas pequenas aldeias, Covas e Vila Nova de Oliveirinha que pertencem à mesma união de freguesias.

Começámos por ser um grupo de 6 voluntárias de áreas diferentes. De lá para cá, a nós juntaram-se a Ajuda-me a Ajudar, as Gaivotas da Torre, o Slower e a 9 Creative Shop. A conta solidária foi criada pelas Gaivotas da Torre, associação de solidariedade de utilidade pública, onde trabalho. 
Em permanente articulação com o Presidente desta Junta e seus habitantes vamos canalizar as ajudas que conseguirmos para coisas concretas. Na página Não Vamos Esquecer, iremos actualizar as necessidades de cada semana, materiais ou humanas. Vamos mostrar o que está a ser feito e o que vamos conseguindo. Vamos mostrar as relações de contas: donativos e gastos. E, até vermos estas aldeias serem erguidas das cinzas, não vamos baixar os braços.

Gostava de convidar todos os leitores a seguirem a página Não vamos esquecer. Esperamos contar com a ajuda de todos para reconstruir estas aldeias. E qualquer assunto que queiram saber ou esclarecer, mandem mensagem.

Só para dar uma ideia do que se passa por estas aldeias, das perdas e dos nossos objectivos para as próximas semanas, faço aqui um curto resumo, que será actualizado na página Não Vamos Esquecer:

– Foi feito o levantamento das casas de primeira habitação que arderam nestas duas freguesias: 39 é o número final. Está neste momento a quantificar-se o custo de reconstrução para posterior decisão conjunta entre CCDRC, Câmara Municipal de Tábua e proprietários com vista à respectiva reconstrução. 

– No levantamento dos barracões perdidos, onde a maioria tinha o seu sustento (gado, aves, rações, alfaias agrícolas, ferramentas, máquinas, lenha) o número sobe para 70, com uma média calculada em 40m2 de área coberta. 

– Existia também, nestes barracões um número incalculável de bens. A vida, o alimento destas famílias: as batatas, o azeite (e as azeitonas para o fazer), o vinho, as cebolas, as arcas onde armazenam isto e aquilo. Tudo. Toda uma vida auto-sustentável levada pelas chamas.

– As hortas, as árvores de fruto, as oliveiras. A lenha para o Inverno.

Podia continuar a enumerar tudo e falar, caso a caso, das perdas brutais de cada um. De tudo o mais que o fogo levou, mas seria uma longa tarefa.

Temos alguns grandes objectivos, para já a curto prazo e é sobre esses que vos quero falar:

– Reconstruir os 70 barracões ardidos. Já temos o levantamento para o muito material de construção necessário.

– Equipar os barracões com as máquinas perdidas, essenciais para o sustento destas famílias – tractores, motoserras, tanques para guardar o leite e ferramentas agrícolas.

– Fornecer sementes para poderem voltar a ter as suas hortas e as suas árvores.

– Proporcionar um Natal confortável para estas famílias. Então, para lhes dar algum alento, queremos oferecer um cabaz (com bacalhau, azeite, vinho, batatas, ovos, couves, cebolas, grão, leite e bolo rei) a cada das 100 famílias de Covas.

Para tudo isto, contamos convosco. Nem que seja apenas para partilharem. 

Obrigada por terem lido até ao fim,

Maria
· Conta Solidária Não Vamos Esquecer · PT50.0033.0000.00048400701.18 ·

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Parabéns Seismaisdois!

Fez agora este mês (no mês passado mas  quando comecei a escrever este artigo ainda era Outubro ….) quatro anos que existe este blog.
Tem mudado muito o papel que ele tem na minha vida e é sobre isso que vos gostava de escrever hoje:
Este blog surgiu do pedido de alguns amigos que achavam graça a algumas dinâmicas que tínhamos cá por casa . Começou com  um registo quase diário – uma estafadeira – e, quase tudo, o que fazia partilhava por aqui. Era um blog  muito mais centrado no fazer. Massa fresca e os cereais da força foram dos primeiros posts publicados ainda nesse registo. Quem me lia eram sobretudo amigos e conhecidos. Não sabia muito bem que caminho ia este blog seguir mas gostava da ideia de ir partilhando com o mundo aquilo que fazíamos.
Para mim é, agora, estranho ler posts dessa altura. Parece que não sabia bem o que queria e que ainda não tinha encontrado um tom. Fotografias péssimas, desfocadas e os textos com muito pouco conteúdo. É um bocadinho como olhar para uma fotografia nossa no Inverno de 1995. Uma roupa demodé, má cara e o cabelo com uma franja sem nexo. Na altura achávamos que estávamos bem. Depois percebemos que nem por isso. Apesar de tudo era muito mais simples e ao mesmo tempo mais investido. Mais honesto e ao mesmo tempos mais imediato. Mais rico e ao mesmo tempo mais íntimo.
Mais tarde comecei a perceber melhor  o meu caminho.   A família cresceu e o nome mudou (de cincomaisdois passou (passámos)  a seismaisdois.  Comecei a ter um gosto muito grande pelo acto de escrever por si só. Comecei a sentir-me  bem a reflectir sobre isto e aquilo. Sobre ser mãe, sobre o planeta ou sobre o fim-de-semana. Arranjei um novo telefone o que fez com que as fotografias melhorassem a sua qualidade. Parecia que já tinha encontrado o “meu” tom (e o meu filtro). Textos curtos. Muito coração, pouca cabeça. Fui ganhado leitores muito queridos e amigos e o entusiasmo aumentou. Apetecia-me partilhar tudo o que fazia e ao mesmo tempo pôr em cada artigo tudo o que eu era, tudo o que eu sentia. No dia 9 de Abril de 2015, fazia a Jasmim 6 meses e partilhei um texto, escrito à pressa na sala de espera das Finanças mas, apesar disso, muito sincero e sentido que quase chorei quando o reli – o estado da lamechice   (estava de regresso ao trabalho depois da licença de maternidade e por isso extremamente sensível.. ) Os leitores gostaram.  Partilharam esse texto e, durante uns dias o seismaisdois, habituado a um número amoroso de leitores viu as suas estatísticas atingirem números astronómicos. Comentários a cair  a todo o minuto. Mails a toda a hora. Senti-me uma verdadeira estrela de holliwood . Ego em bala. Tripliquei  (quais quê oitipliquei!) o número de seguidores.
Com o blog tão concorrido e falado comecei a receber algumas propostas disto e daquilo. Tive uns dias a achar que até podia fazer disto vida. Registei o domínio seismaisdois.com. Mas, rapidamente percebi que não era bem assim.
As propostas que recebia eram em  troca de produtos e, raramente produtos  que sentisse que me fizessem falta (onde andaram as lojas de tecidos nesta altura!!?) Também, rapidamente voltei a ter um número normal de seguidores e leitores. Maria, a pipoca mais doce não durou mais do que duas semanas. Rapidamente larguei o deslumbramento e percebi que isto de ser blogger não era para mim. Na verdade este foi, para mim,  o maior momento de viragem no seismaisdois: Deixei de ter qualquer vislumbre de negócio ou de qualquer futuro de vida nesta plataforma. E senti uma liberdade enorme. Escrevo quando estou inspirada ou quando sinto que tenho alguma coisa para dizer. Raramente me interesso pelos números que aqui tenho e quando o faço é só por mera curiosidade ou para ver se tenho comentários para responder. Falo sobre o que quero e até já usei palavras menos bonitas. Já mostrei  o meu lado menos cor de rosa e até tive um texto que tive de apagar por ter tido demasiados visitantes para o meu gosto. (Mas que até deu resultados)
Este blog continua a ter um lugar muito muito especial na minha vida. Faz me perceber que gosto de escrever. Faz me sentir que tenho um registo para a vida  destes melhores anos que estamos a viver. Faz-me pensar, obriga-me a reflectir  e a ser activa em várias frentes. Do blog surgiu um livro, várias amizades e novos projectos.
Adoro todos os meus leitores sobretudo os que comentam e que não se zangam de eu nunca responder (mas leio e adoro todos). Continuam a vir cá, apesar de eu vir cá tão pouco. Adoro saber que tenho um espaço, público onde posso partilhar tudo o que eu quiser, mas que não traz com ele qualquer tipo de obrigação. Se houver tempo, escrevo, se não houver não escrevo. Se tiver tema partilho. Se não tiver tema não partilho. Ter a certeza que não  tira tempo nem à família, nem ao trabalho. Cada um no seu lugar e um blog, é um blog.  Na verdade o seismaisdois é mesmo igual a mim. Com muita energia mas sem compromissos. E é nessa liberdade que consigo manter viva a chama de um blog que apesar de ser um blog  é só um blog.
Parabéns seismaisdois. I love you.

 

Que farei quando tudo arde


dia 1

o começo:

Hoje o dia começou com uma longa viagem a partir de Lisboa e um desvio de quase hora e meia num engano de percurso.

Partimos quatro psicólogas com um misto de sensações: Sentimento de missão por um lado ( porque não conseguíamos  ficar indiferentes ao que se estava a passar no nosso país). E de independência, por outro: Quatro miúdas metidas num carro de mochila às costas, sem filhos e sem maridos durante 3 dias (deixamos os 4 maridos incríveis com os nossos 13 filhos (?!?!) que ficaram em Lisboa) tivemos momentos na viagem que até nos esquecíamos para onde íamos, às vezes até parecia que íamos numa viagem de finalistas. Estávamos com toda a pica e garra, mas não tínhamos bem noção para o que íamos .

 Chegámos a Tábua já a bater a hora de almoço. Impressionante o negro da viagem, parecia que estávamos a chegar a Marte com todo aquele calor e aridez. Negro. Quilómetros e quilómetros de negro. Tudo negro. 

Assim que chegámos e feitas as apresentações, só queríamos  deixar o edifício da Câmara Municipal de Tábua – que tão calorosamente nos recebeu – para irmos finalmente para ” o terreno”.

Fomos “enviadas” para a Junta de Freguesia de Covas – cujo edificio e carros também arderam e onde fomos recebidas pelo  presidente, o João Nuno. 

Atendemos, hoje à tarde mais de 20 pessoas. Nas suas casas ardidas, nos pastos queimados, nos barracões desfeitos.

Estive muito tempo com um casal de pastores, e fui pastora por mais de uma hora, pelo meio das paisagens negras (fomos em busca de um pedaço verde para as mais de 40 ovelhas “adoçarem a boca”) 

Ardeu-lhes tudo, as máquinas, a mota, as arcas e os tanques de leite – sua única fonte de rendimento. A palha, as batatas o azeite e a horta. O senhor António conseguiu salvar o gado arriscando a própria vida (como tantos outros que por aqui temos  conhecido…) apagando cada labareda que por lá entrava com… vinho ( muito cedo naquela noite ficaram sem a água – assim que acabou a electricidade acabou a água, que vem dos poços)

Diz o senhor António com um sorriso positivo “vão-se os anéis, ficam-se os dedos, não é?”

A história do senhor António foi a primeira de muitas que ouvi hoje. 

“Ardeu-me tudo” talvez a frase que mais ouvimos durante todo o dia e toda a noite. E ardeu. E  o tudo para uns é diferente do tudo para outros.

Ninguém dorme por aqui – há mais de dez dias – dizem que fecham os olhos e vêem as chamas, as labaredas. Um clarão. Lembram-se dos gritos, das explosões e do barulho do fogo, “Tudo o que apanhava era dele”. As pessoas estão exaustas e assustadas , mas não perdem as forças. Precisam de falar de partilhar a sua dor. De ser ouvidas. 

Daquela noite, 15 de Outubro estas pessoas nunca se vão esquecer. 

Vou agora dormir com o desejo que também   ninguém , por este país fora, se esqueça o que se viveu aqui nesse dia (e do que se perdeu).

  a noite:

Eles sonham com o fogo, eu sonho com eles.

Dia 2

Hoje chegámos cedo “ao terreno”. Todas sentimos que as pessoas precisam e querem muito ser ouvidas. Continuamos com o presidente da Junta de Freguesia de Covas – talvez uma das pessoas mais extraordinárias que conhecemos. Conhece cada pessoa, cada história, cada casa. Cada perda. Todos o adoram e ele todos adora. ” ele é bom demais” dizem alguns.
Percebeu-nos às 4 e levou cada uma até àqueles para os quais lhe pareceu que tínhamos mais perfil. Eu fiquei quase sempre com pastores. Levo a alcunha de “pastorinha” bem no fundo do coração. 

Os pastores perderam muito. Os que não perderam gado perderam o pasto. Os fardo de palha. As máquinas. Os taques. “Ardeu-me tudo” continua a ser a frase mais ouvida por aqui. 

Aqui as pessoas precisam de tudo. Mas precisam de pouco. Porque o tudo delas em nada se assemelha ao nosso tudo. Perderam as casas e nelas o passado e o presente. Perderam os seus barracões e com eles o seu sustento, a sua vida, o seu futuro. Os seus animais – incrível a ligação destas pessoas aos animais – tantas que arriscaram a vida para salvar as ovelhas, o cão ou o gato. A tristeza do João que salvou dois dos seus cães mas houve um que lá ficou. 
  Continua a ser difícil descrever tudo o que estamos aqui a viver. Continua a ser difícil escrever e passar para o papel tanta emoção ao mesmo tempo. Assimilar tanta histórias, tantas perdas, tantas chamas. 

Escolhi não falar aqui nas histórias que temos ouvido. Todas diferentes. Todas elas pessoas marcadas para sempre. E todas nos marcaram para sempre.

Dia 3

da insónia: 

Acordo às 6 com um sentimento de revolta. Hoje vamos embora. E agora? Onde andam os políticos do nosso país? Onde estão os abraços calorosos (gratuitos, pretensiosos) das eleições autárquicas ? 

“Só queríamos um abraço!” Disseram tantos. 

Fizemos um levantamento das necessidades emocionais e materiais de cada um. A curto prazo. A médio prazo. É tanta coisa e isso deixa-me ansiosa. Isto é uma de Calamidade pública! Sinto que o estado  não tem capacidade para lidar com uma catástrofe desta dimensão. Sabemos que está tanto a ser feito e ainda assim não chega. 

Por aqui vivia-se uma auto- suficiência pura, verdadeira e orgulhosa. Agora nada. Só o trauma (e que trauma tão grande), e a vontade (e que vontade !) de seguir em frente. E os sorrisos…

Gostava de cá ficar até ter a certeza que está tudo verde e recuperado. Penso nisso um bocadinho a sério. Mas agora temos mais um dia pela frente. Muita gente para conhecer ainda, outras tantas para nos despedirmos. 

do regresso: 

Partimos as quatro com um nó na garganta. Não gostamos de despedidas. Fizemos relações para toda a vida. Com as pessoas, com os técnicos, com aquelas terras. Umas com as outras. Sabemos que vivemos, juntas, uma das mais intensas experiências das nossas vidas. Ficámos marcadas para sempre pelas mais de 60 pessoas com quem falámos estes dias. Levamos “Covas” no coração. 

Hoje:

Hesitei muito partilhar este diário. Sentia-o demasiado pessoal. E decidi guardar para mim a história da Natividade, da Purificação, da Maria da Glória. Do António, do(s) Jorge (s) do Carlos e do Luis. Da Maria João. Da Raquel ou da Teresa. Mas é deles, agora, metade do coração. 

Obrigada Junta de Freguesia de Covas pelo apoio e confiança. 

Obrigada gabinete de Acção Social da Câmara Municipal de Tábua pelo conforto e carinho com que receberam estas quatro voluntárias durante estes três dias.

Obrigada amigas Mafalda, Alexandra e Vera: Levamos Tábua tatuado no peito.

Os vestidos (ou a tradição já não é o que era)


Há já uns anos que tenho como tradição familiar, nas festas de aniversário fazer uma roupa para os quatro, para dois ou pelo menos para um. 

Este ano, e pela primeira vez não costurei nenhuma roupa para nenhum deles. Na verdade foram várias as razões para que isto acontecesse. Mas o sentimento de frustração não se deixou intimidar por elas. Eu que  sempre me orgulhei de ser capaz. Eu que sempre gostei do “Sim eu tenho quatro filhos e um trabalho e consigo costurar roupa para os meus filhos!”

Mas desta vez não consegui. Porque ainda estou a aterrar nos recomeços. Porque fui “passear ” uns dias para a costa vicentina. Porque tinha o primeiro post para o Slower. Porque não tinha dinheiro para comprar tecidos. Porque tenho três filhos a fazer trabalhos de casa. Três mochilas para gerir. Porque tenho estado cansada, de noite. Porque isto. E porque aquilo. 

Na verdade não tenho de ir a todas e não posso ser assim tão rígida e exigente comigo própria e com estas tradições a que me proponho. Porque na verdade não são elas que fazem a felicidade dos nossos filhos. Somos nós. Só nós. Todos e inteiros, nós.

Lembrou-se a Luz – ao ver me triste porque não ter um vestidinho mais arranjado para as vestir num dia de festa – que tínhamos uns vestidos, bem antigos, mas como novos, guardados para uma ocasião especial. E a ocasião era mesmo esta. E há sempre um lado bom nas coisas que nos parecem menos boas.. Os vestidos são lindos e elas lindas ficaram. E eu feliz e pronta para regressar à máquina de costura (sem a pressa da festa!)

Três! (e seis e sete e dez…)

A Jasmim fez três anos. Pela primeira vez temos um filho a fazer três anos sem ter um bebé mais pequenino para nos aconchegar o colo.  Mas minha doce filha Jasmim, minha querida filha mais nova. Serás sempre a minha pequenina.  E tenho a certeza que, por mais que tu cresças vais sempre caber no meu colo (não tem fim o espaço do nosso colo).
Na verdade, muita coisa mudou desde que tu tem seis meses. Ser mãe de quatro filhos abaixo dos sete anos, e ser mãe de quatro filhos entre os três e os dez é diferente. Tu mudaste, nós mudámos. O manos mudaram. Todos crescemos. A vida mudou.  Sinto que há um ciclo – que dura há dez anos – que está a terminar. Um ciclo que, a certa altura, parecia que era para sempre. Gravidez, puerpério, fraldas, cheirinho a bebé. Primeiros dentes, primeiros passos, primeiras palavras. Primeiro dia de escola. Primeiro ano. Segundo ano.  A vida como que parada e os filhos, bebés, como o centro da nossa vida. E nós como o centro da vida deles. Terceiro aniversário. E a vida continua.
De repente não há fraldas. De repente dormimos toda a noite. De repente dar de mamar está longe. De repente temos três filhos que sabem ler e um filho mais novo com três anos. De repente percebemos que isto afinal é mesmo rápido. De repente temos tempo. De repente  a nossa cabeça tem espaço para outras coisas, mas não temos a certeza que queremos ter espaço para outras coisas.
Sinto-me bem no conforto intenso de uma casa cheia, barulhenta e cansativa. Ninho cheio. Mas percebo que não é uma realidade eterna. Ao contrário do amor que lhes temos. Não tem um fim este amor (nem o espaço do nosso colo). E é esse amor que queremos que levem com eles deste ninho em que vivemos. Queremos enchê-los de amor e criar memórias. Memórias doces que cresçam com eles. Que os acompanhe e lhes dê a liberdade de crescerem sabendo que estamos presos uns aos outros por um laço apertado. Para sempre.