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Os melhores anos

            

 

No Domingo passado estivémos a ver o boyhood. Para mim este filme teve o mesmo impacto emocional que os Amigos de Alex. No boyhood é  a nostalgia dos filhos a crescerem. Nos Amigos de Alex, nostalgia dos tempos de  adolescência. 

 Eu sofro das duas. Tenho nostalgia do passado, e como tal da infância e adolescência, mas sofro de uma coisa ainda mais estranha.

Tenho nostalgia do presente. Ou melhor, quando estou a viver o presente, quando é muito muito bom, imagino o que vou sentir uns anos depois a olhar para esses momentos. E, como tal,  a conversa que a mãe tem com o filho no fim do boyhood foi como que uma antecipação do que imagino que vou sentir daqui a uns anos. 

Mas é a pensar nos melhores anos da minha vida que escrevo este artigo. E esses estão aqui. São agora, e todos os dias penso que não os quero perder nem por nada.

Claro que os anos da adolescência e juventude são muitas vezes vistos como os melhores, como o auge (e isso é-nos imposto constantemente em tantos meios), sem preocupações, sem deveres, só curtir.  E isso é óptimo – foi óptimo – mas sei bem que estes são os melhores anos da minha vida, por muitas razões, mas principalmente por causa dos meus filhos. Amar e educar os meus filhos preenche-me de tal maneira que quero viver tudo intensamente. 

E é claro que muitas vezes no meio das rotinas, das preocupações e obrigações  é difícil parar e curtir um bocadinho. Muitas vezes no tanto querermos proporcionar um futuro melhor para os nossos filhos estamos, sem querer, a tirar-lhes (a eles e a nós) um bocadinho o presente. No peso de tantas coisas passamos ao lado do ouro que é ver crescer os nossos filhos e que a vida é isto. Agora. 

E eu não quero que este ouro me passe ao lado. Quero ter a certeza que fiz tudo o que estava ao meu alcance para aproveitá-los. Quero ter a certeza que lhes dei todos os beijinhos possiveis por dia. Quero ter a certeza que brinquei tudo o que consegui. Quero ter a certeza que lhes dei festinhas todas as noites até que adormecessem, mesmo que isso implique uma cozinha desarrumada. Quero ter a certeza que fui passear com eles a um parque, quando eles pediram, apesar de não achar graça nenhuma a parques infantis.  Que fiz bolachas quando deveria estar a fazer sopa.  Que saí mais cedo e entrei mais tarde no dia da mãe, apesar de ter de desmarcar reuniões para o fazer. Que fiz panquecas quando na véspera tive um jantar e tenho a casa de pantanas.

Quero ter a certeza que, quando estes anos maravilhosos que vivo como mãe, com uma casa cheia, passarem vou olhar para trás e não vou pensar que não os aproveitei da melhor maneira. Que não aproveitei os meus filhos enquanto eles ainda são “meus”. Que não deixei trabalho, cansaço ou outra coisa qualquer ser prioridade. 

Sei que tudo passa. Mas gosto de pensar que daqui a uns anos, quando disser que passou tudo a correr, também vou poder dizer que pelo menos eu estava a olhar. 

Parei. Escutei e olhei. E por isso, e para isso, centro-me. Concentro-me. E, quando às vezes penso que não tenho tempo para mim, penso também que qualquer dia vou ter mais tempo para mim, mas que vou ter saudades de não ter tempo para mim. Porque, na verdade o “meu tempo” agora é deles. E para eles.