Pratos limpos

        

Com este artigo, provavelmente perderei mais de metade dos meus leitores mas, ainda assim vou ter de o escrever.
Espero que ninguém se zangue.
O assunto é a alimentação. 
Sempre achei que tinha uma alimentação saudável. Não consumo comidas prontas, nem lanches empacotados. Tento ter uma alimentação variada, rica em saladas, legumes, leguminosas. Evito gorduras hidrogenadas, conservantes, antioxidantes, espessantes e corantes. 
Adoro cozinhar, inventar e variar. Adoro que o meu filho Benjamim me peça todos os dias para fazer lentilhas, e que o Jacinto não consiga comer uma sanduiche sem estar cheia de alface. Gosto que sejam crianças que gostam de tudo e que não torçam o nariz quando vêm qualquer coisa diferente. Que me pedem que faça os “meus “queques quando há um lanche na escola. Que querem levar as minhas barras de cereais para um piquenique. Que sabem que as goluseimas são uma excepção (e não uma proibição).
Mas, de há uns tempos para cá que ando um pouco baralhada e desencontrada com aquilo que ofereço à minha família. De repente, dei por mim a não publicar no blog uma fotografia da ementa semanal porque tinha “Bacalhau no forno” e “salsichas com couve” em vez de “quinoa com rabanetes” ou “pudim de agave com framboesa “. 
Então dei início a uma viagem pelo mundo da “nova” alimentação saudável. Decidi que tinha de mudar a minha alimentação e da minha família. Açúcar é veneno. Leite só de amêndoas. Gluten free. Super alimentos. Quinoa. Chia. Goji. Stevia. Fora o açúcar e as farinhas refinadas. Comprei livros, emprestaram me outros.  Demasiada informação resulta em demasiada contradição. Andei baralhadíssima. O que é que posso? O que não posso? O que não devo? De repente já não fazia bolachas nenhumas, ficava sem ideias para escrever a ementa. Nem pãozinho caseiro me parecia “bem” oferecer aos meus filhos.
Percebi então, nesta viagem, três coisas:
A primeira é que este tipo de alimentação faz muito sentido, é mesmo saudável e cria em todos hábitos de vida e de alimentação conscientes, saudáveis, ricos naquilo que é realmente importante. (embora pudesse, agora divagar sobre o factor sustentabilidade – que considero tão importante – e que aqui deixaria logo de ser alimentação consciente, pois que consciência é essa que nos faz bem ao corpo e mal ao planeta?).
A segunda é que, definitivamente, não é para mim. Não só o meu bolso não consegue suportar os preços desta alimentação, como também não consigo ser coerente e confecionar “apenas” este tipo de alimentação. 
Para mim, excelente de vez em quando, porque adoro variar os tipos de alimentação que faço. Esta é sem dúvida mais uma opção. 
A terceira é que não  me sinto identificada com este tipo de alimentação. Tenho de ser sincera. Gosto de ser coerente.
Gosto de cozinha tradicional portuguesa. Gosto de comida mediterrânica. Gosto de pão.  Gosto de ervilhas com ovos escalafados. Gosto de bacalhau à brás. Adoro inventar, dar a volta ao texto. E, por isso gosto também de comida indiana, vegetariana, japonesa e italiana. Mas gosto sempre mais da nossa. Gosto de azeite. Gosto de coentros. Gosto de tomate. Gosto de fazer bolos e bolachas (gosto principalmente que os meus filhos levem para a escola aquilo que foi feito por mim)  – dizem que é bom o meu bolo de chocolate e os meninos também gostam. Faço um bolo por semana. Não me peçam para o trocar por Muffins de beterraba. Não me peçam que olhe para as 150gr de açúcar que o meu bolo leva e as 100g de farinha como um veneno. 
Já fiz, experimentei e até gostei, mas não é a minha praia. 
Caseiro, sem excepção. Português, a maioria das vezes. Sustentável, sempre que posso.  Sazonal, de preferência. Maria de Lurdes Modesto. Sempre.
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45 thoughts on “Pratos limpos

  1. Ola foi um prazer ler este post, eu também ando nessa roda viva mas como um amigo me disse “não vais conseguir mudar tudo” e é mesmo verdade.
    Estava quase a dar em doida com tantas pesquisas, quanto mais pesquiso mais descubro e se o leite faz mal, os cereais como trigo, centeio entre outros, estao todos alterados com o aditivos da era os trans, dai não poderei mesmo que queira; fazer as massas, o pao, biscoitos tudo esta alterado com produtos crescimento pouco saudáveis.
    Mesmo plantar legumes, as aguas já não são puras, o ar está poluído…..
    Como lutar contra tudo isto, sinto me tao mas tao pequena, gostaria dar também as minhas filhas uma vida mais saudável, mas quanto mais pesquisa mais informações encontro e me deparo que tudo ou quase tudo esta alterado ate a nossa água.
    Mais vitaminas e minerais ( b3,b2, calcios, ferros, eu sei lá, dentro dos cereais das nossas crianças também não são benéficos.
    Então que fazer!?!?!?!?! Sinto me incapaz…..e com tanto para dizer beijos
    Adorei o artigo talvez voltemos ao antigamente por necessidade e tudo volte a ser como era antes…
    Agora ando na experiência de fazer fermento caseiro, espero que resulte!!! 😉

  2. Muito bem! Que bom fazer a experiencia para depois tomar uma decisao informada sobre o que é melhor para si. E essa salada da fotografia tem optimo aspecto!

  3. Não poderia, me identificar mais com o que escreveu. Tb tentei ter a ” a alimentação da moda” , mas cheguei á conclusão que existe um equilíbrio, posso diminuir o consumo de alguns alimentos, mas não é preciso demonizá-los.

  4. Bom dia Maria,
    Mesmo depois deste post vou continuar por aqui, se não te importares 🙂
    É que gosto do que escreves e a tua maneira de viver inspira-me!
    Tenho tentado fazer mais e comprar menos feito 😉
    Não tenho um jardim como o teu (infelizmente, nem sequer uma varanda), mas esta semana fiz uma mini horta (com ervas aromáticas e pouco mais) 😉
    Cada um deve encontrar o que é melhor para si e para a sua família! Se te apetece um “Bacalhau à Zé do Pipo” ou um bife com batatas fritas, eu não te vou condenar por isso 🙂
    Nem 8 nem 80! Com equilíbrio e moderação, como em tudo na vida, é sempre o melhor 🙂
    Bom fim de semana!

  5. Parabéns Maria. Gosto do teu Blog e leio sempre
    . Estas certa,quanto mais natural melhor. Dá mais trabalho ,mas tem as suas compensações no futuro. Segue a “roda dos alimentos” e tudo é mais fácil. Não complicar. Beijs para ti e família linda que tens.

  6. Olá Maria!
    Mais uma vez gostei imenso do teu post e identifiquei-me imenso com ele.
    Também tenho lido bastante sobre o tema e tenho tentado fazer algumas alterações: menos açucar, goluseimas só em dias de festa, corantes, conservantes, lanches de pacote nem pensar…
    Gosto imenso de cozinhar e os miúdos já estão habituados a comer e a preferir o que é feito em casa.
    Também tem a ver com os nossos habitos, com a maneira como fomos criados, certo?
    Variedade, sustentabilidade, sazonabilidade, dieta mediterranica, concordo plenamente!
    Agora fundamentalismos e mudanças radicais…não são para mim!
    Beijinhos!

    1. Concordo. Em casa dos meus pais sempre se comeu muito bem e dos meus avós também… Eu não tenho lido muito sobre o tema mas de qq forma tenho uns livros e não os consigo seguir a 100% … Claro que tiro óptimas dicas de todos e as uso no dia a dia .

  7. Olá Maria! Por aqui já ganhou uma leitora do seu blog 🙂 Gosto muito. Não só as suas opiniões e fotografias mas essencialmente a forma apaixonada e descontraida como escreve qualquer assunto. Parabéns.

  8. Olá Maria! Muitos parabéns pelo blog! Em relação a este post, não podia estar mais de acordo, é mesmo isso. Obrigado por toda a partilha!

  9. Foi de coragem! Boa!
    Não podemos ser totalmente escravos das tendências, delas devemos retirar aquilo que para cada um de nós é razoável. Fujo a sete pés do açúcar, uso preferencialmente açúcar amarelo (mascavado, noce in a while…) mas não roubo aos meus filhos a delícia que para eles é comer uma goma, ou um bolo de pastelaria. Fatia de bolo para a escola, sim, caseiro, e o impulso maior em fazê-lo veio deste blog 😉 Well done, Maria, que bom trabalho, na simplicidade.. está lá tudo!

  10. Fiquei ainda mais fã.
    No início ficava curiosa, agora só me consigo irritar com as dietas da moda.
    Por defeito profissional o digo: Tentem comer apenas o que os vossos avós comiam.
    Com a nossa alimentação “mediterrânea”, isso ainda faz mais sentido.

  11. Acho que maior parte das mães pensam da mesma forma….”nem tanto ao mar, nem tanto à terra”, tem de haver equilíbrio. eu sou da mesma opinião 😉

  12. Finalmente! Um post que traduz tudo aquilo em que acredito (apesar de torcermos um bocado o nariz às saladas cá em casa, mas enfim, não consigo milagres…). Afinal, quinoa, tofu, goji e afins são na verdade alimentos exóticos, oriundos de regiões onde não temos afinidades (a maioria de nós, pelo menos). Prefiro o azeite e a manteiga (verdadeira) ao óleo de côco, por exemplo. São nossos. São saudáveis, integrados numa alimentação variada. Não tenho nada contra experimentar algo novo de vez em quando, mas mudar radicalmente para sabores e compostos totalmente estranhos ao nosso organismo é que não me parece muito saudável.
    Enfim, mas eu nunca fui de modas. Aliás, sempre que algo fica na moda, demoro muito até experimentar… E esta não me tem convencido.
    Muito obrigada por este post cheio de bom senso.

  13. adorei este post! E é tão verdade!! Sinto o mesmo. E que receita é a quarta fotografia? Partilhe as suas receitas, por favor. Adoro ler este blog! E fiquei cheia de vontade de receber um convite de um amigo para ir a uma dessas cenas!! Bjs

    1. Olá! Estou a responder super atrasada … Já tinha lido o comentário mas ainda não tinha tido oportunidade de responder . Ando a pensar começar a publicar receitas.. Ainda não sei bem como nem o quê… quem sabe não teremos um amigo comum que a traga à Cena!! Beijinhos

  14. Descobri hoje o seu blog e ao ler este texto identifiquei-me a 100%. Estou totalmente de acordo. Também tento fazer as melhores escolhas possíveis, principalmente para os meus filhos, mas com tantos anos com um tipo de alimentação tradicional, a mudança não é fácil.
    Ganhou hoje mais uma leitora 😀

  15. que bela surpresa este blog 🙂 tropecei nele ontem e confesso estou encantada com o que leio. Sobre este post, concordo plenamente consigo. vivemos tempos que nos empurram para respostas “correctas” e que devemos ser assim ou assado, seguir modas bonitas que ficam bem “instangramadas”. há espaço para tudo. para o muffin de beterraba e para a decadência gulosa de meia fatia de um bolo de caramelo. para águas temperadas com gengibre e para o néctar alentejano. sou fã da cozinha mediterrânea. no fundo, a nossa. a cozinha mediterrânea está na nossa essência. e também sou uma grande fã da maria de lourdes modesto e do seu magnífico tratado da cozinha tradicional portuguesa. adoro detox de xerém com cadelinhas 🙂 forte abraço

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