Músicas, filmes e outras histórias

        

(quando acabei de escrever este post reparei que apesar de estar gigante ainda havia tanto para dizer – é um assunto que dá pano para várias mangas, praticamente cada parágrafo dá um post… Estive para não publicar mas vai assim e depois se calhar volto a algum dos temas)

Muitas vezes penso que tipo de influência cultural seremos para os nossos filhos. 
Cá em casa ouvimos muita música e tentamos dar-lhes sempre alternativas que consideramos saudáveis e de qualidade.
Até aqui tem corrido bem, a música cantada em português é rainha mas pedem sempre que leve o Johnny Cash ou o Bob Dylan quando vamos de viagem, reconhecem o Bob Marley em qualquer parte. Distinguem se é o John ou o Paul quando estamos a ouvir Beatles (distinguem melhor que eu, com péssimo ouvido). Quando levo M.I.A. ou Vampire Weekend no carro pedem que ponha bem alto – eu só oiço M.I.A. aos berros. Sabem de cor as letras do Tiago Guillul, do António Variações, dos GNR e do Raúl Seixas. Não ouvem mas sabem bem que o Elvis é o rei do rock, a Amália a melhor cantora do mundo e acho que já apanhei uma conversa sobre o Frank Sinatra (!?).

Quando se trata de filmes e de desenhos animados tentamos sempre dar alternativas ao que é impingido pelos canais de TV. Não é dificil porque, como temos a televisão sempre desligada, quando querem ver alguma coisa pedem especificamente o que querem ver (o que nos dá uma margem muito maior de escolhas de qualidade). Claro que por mim só viam a Heidi, o Tom Sawyer ou os filmes do Hayo Miyazaki, mas tenho também outras escolhas mais modernas (e de vez em quando há coisas boas a passar na televisão) para além dos filmes que passaram no cinema recentemente e claro, os clássicos da Disney.

Os livros, os livros é mais fácil. Há muitos bons livros para crianças hoje em dia, principalmente quando temos em casa tantos livros da Planeta Tangerina e da Kalandraka. Para além disso temos o nosso clube de leitura que tem ajudado muito.

Basicamente o que fazemos é partilhar aquilo que gostamos e que achamos apropriado para as idades deles.

Então, penso muitas vezes. Será que eles ouvem/ gostam / preferem aquilo que nós lhes damos ou é apenas por ainda serem pequenos e não terem os seus próprios meios para fazerem as suas próprias escolhas?
E a nós? Qual o nosso papel? Devemos proibir aquilo que consideramos sem qualidade?

Não é um assunto fácil. Claro que não quero que os meus filhos sejam os “esquisitos” da escola só porque não vêem a telenovela ou uma das séries sinistras (desculpem não tem outro nome) que passam nos canais de animação. Mas também não posso compactuar com este sistema que teima em impingir programas e músicas que são autêntico lixo, às crianças e aos adultos. 
E então? Dar-lhes a eles a escolha? Não é um duelo justo, é a mesma coisa que lhes dar a escolher entre um prato de um bom peixe grelhado com salada e um pacote de batatas fritas. Nós sabemos bem o que é melhor, mas também sabemos bem o que é mais apetecível para uma criança. E é isto que quem produz a maioria programas de hoje em dia sabe também. Conhecem as crianças como ninguém. Sabem bem como conseguir o factor “vício” e o factor “vais gostar disto logo à primeira e depois é óptimo porque também há brinquedos, e cromos, e roupas, e mochilas e por aí fora”. 
E depois todos vêem as mesmas coisas e ouvem as mesmas músicas e se alguém – em vez do típico “é mau, mas o que é que eu vou fazer? eles adoram” – pára um bocado para pensar e dizer “não quero isto”, passa logo para o clube dos “esquisitos”.

Por isso, tenho dificuldade em  tomar uma decisão relativamente a este assunto. E por isso a nossa decisão tenha acabado por não ser bem uma decisão. Foi assim uma meia coisa. Não é proibido, mas também não é permitido. É assim tipo nem é branco nem é preto. Sempre com a certeza que eles sabem a nossa opinião relativamente a estes assuntos e programas. 

O que tenho aprendido tem sido incrível (estou sempre a aprender com os meus filhos). 
Se lhes dermos boas alternativas eles adoram e tenho a certeza que conseguimos que distingam entre aquilo que é melhor e o que é pior (mesmo que às vezes continuem a querer a alternativa menos boa). 

Há uns tempos atrás numa das idas com eles a uma bibilioteca municipal disse-lhes que podiam escolher o filme que quisessem, e havia de tudo um pouco. Bons, maus e piores. Capas com super heróis, cores estridentes e outras coisas super apelativas.
O Jacinto apareceu radiante com um DVD na mão. Quando vi não queria acreditar. Trazia “O Fantástico Senhor Raposo”. O único filme que eu ainda não tinha visto do meu realizador preferido, Wes Anderson. Os meus olhos brilharam de alegria ao ver esta escolha. Vimos o filme todos e adorámos. O Jacinto, radiante quis mostrar a todos os amigos, pois ninguém conhecia este filme. Um sucesso. 
(Pode ter sido pura coincidência e da próxima vez que lá for ele me apareça com o filme dos Invizimals mas até lá, estou feliz.)

Também com o Benjamim já fui surpreendida (bom, eles surpreendem-me muitas vezes, principalmente com as escolhas musicais diárias).  Ele estava doente e deixei-o escolher o livro que quisesse numa livraria. Tinha toda uma panóplia de livros à escolha. E escolheu “O Rapaz que gostava de aves” da Planeta Tangerina. Hoje em dia diz que é o seu livro preferido e sabe de cor a maioria das passagens. 

 

A Luz, a Luz enquanto não descobrir  o Heavy Metal continua a pedir sempre para pormos o Bob Marley e sempre que ouve música reggae diz que é o Bob que está a cantar. Por enquanto ainda não me pediu para fazer rastas, mas confesso que acho que já esteve mais longe…. 
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12 thoughts on “Músicas, filmes e outras histórias

  1. Oh Maria, gostei muito. Acho que essa é a melhor abordagem. O meu filho tem 7 anos, desde muito pequeno que conhece e adora todas as músicas dos Xutos, adora o Tom Sawyer (mas tem medo do índio Joe) e gosta muitodos livros da Anita! Imaginas se ele conta isto na escola? Já agora, posso fazer-te uma pergunta: ele gosta muito de camisola sem manga, como esta que o Benjamim tem vestida nesta foto, mas não é fácil de encontrar. Onde compras? Obrigada por mais um post fantástico 😉

  2. Concordo consigo!
    Eu sempre ouvi a música que o meu pai punha em casa e no carro. Iamos sempre a cantar nas viagens a música do tempo dele e que ele gostava: jethro tull, led zepellin, beatles, nina simone, etc. Ainda hoje gosto e associo sempre a música que ouvia ao meu pai. Aos poucos fui ouvindo outras coisas também, construindo o meu gosto. Aqui em casa também ouvimos muita música desde clássica, a jazz, bossa nova, portuguesa e a minha filha de 3 anos já pergunta quem é que canta esta música. Na maternidade, no dia em que nasceu, chorou bastante à noite e eu tinha uma série de músicas infantis preparadas para o caso disso acontecer e para a embalar mas com a atrapalhação só me saiu o leãozinho do Caetano Veloso!!! Até hoje é a música que a acalma! Quanto a músicas infantis e como vivemos fora ela não conhece bem as portuguesas mas não faz mal pois conhece outras e adora o twinkle, twinkle little star, por exemplo!
    Quanto a desenhos animados, sou muito selectiva e não me importo. No entanto, também temos um DVD da Dora, do Barney e do Mickey mas a Sara escolhe sempre o Totoro (em japonês porque me enganei ao comprar!!) ou o Ponyo. Sempre adorou o Pocoyo e agora também adora o Frozen! Já não a deixo ver o Ruca pois acho que lhe introduziu maus hábitos e porque não acredito que na vida real nenhuma mãe é tão paciente e correcta como a dele!! Não há paciência para tanto fofinho!! Mas a minha filha farta-se de falar com a Rosita!! Impressionante!
    Quanto a livros temos muitos diferentes e também somos selectivos (muito!). Fica uma sugestão dos últimos preferidos (nossos e dela). São do Chris Haughton: “shh we have a plan!”; “oh no George” e “a bit lost”… são deliciosos e ela já os sabe de cor!! http://www.chrishaughton.com/

    Enfim… acho que é nosso dever tentar escolher o melhor. Eles hão-de ter muito tempo para depois seleccionar o que quiserem mas se começarem com uma boa base já é meio caminho andado!! 🙂

  3. Este post faz-me sorrir porque todos os dias discutimos (eu e o meu marido) sobre este assunto…

    Também temos 4, mas com duas diferenças: os 3 mais velhos são mais crescidos do que os seus (15, 13 e 10 anos) e a mais nova tem uma grande diferença de idade dos outros (faz 3 daqui a dois meses).

    Com os 3 primeiros fizemos exactamente o mesmo que vocês. Correu tudo bem até o mais velho ter 11 ou 12 e o seguinte 9 ou 10. Começaram a pedir para ouvir em casa o que ouviam em casa dos amigos, no carro dos amigos, no leitor do professor na aula, etc. Começaram a pedir para ouvir ad nauseum uma determinada estação de rádio sempre que vamos no carro. Começaram a ligar aos programas de tv de que os amigos falavam. Começaram a ver os filmes que os colegas vêem no cinema. E

    nfim, dois anos depois disto tudo começar chegaram à adolescência e lá estão, de pedra e cal. Querem fazer o que os amigos fazem. Ponto.

    A mais nova, no turbilhão, apanha de tudo: Badoxa e Johnny Cash, Riannon Giddens (genial! Joan Baez meets Nina Simone) e Rihanna.

    É muito difícil educar.

    Mas continuamos a fazer o nosso melhor: o que lhes mostramos, o que escolhemos para ver na tv em família, o que escolhemos para as longas viagens de carro, continua a ser do nosso gosto. Que também já é, sem eles se aperceberem totalmente, o deles…

    😉

  4. Olá, Maria. Comecei a ler o seu blogue há pouco tempo, mas acho-a uma inspiração! Este post, especialmente, veio tocar num ponto crítico. Antes de ter filhos, achava que não os deixaria seguir a “manada”, que não deixaria filha minha ter coisas da Hello Kitty ou ver a Violetta (na altura haveria outras Violettas). Mas descobri que o jardim de infância pode ser uma péssima influência neste sentido – imagino a escola: a minha filha de 4 anos começou a gostar da Violetta sem sequer nunca ter visto um único episódio, o que me deixou muito triste, porque senti que não há forma de escapar ao lixo que os media nos impõem. Já nos acham muito esquisitos por não bebermos leite, por mandarmos fruta desidratada para a escola e outras “manias” alimentares, então se ela não pudesse ver de todo aquilo que as amigas devoram, seria o fim da picada… Acabámos por optar estabelecer limites, deixá-la ver, mas em dias específicos, cá para casa só comprar livros da Kalandraka, Planeta Tangerina e da OQO, mas deixá-la trazer a parva da Princesa Poppy da biblioteca (desde que traga também outro livro qualquer). No carro, ouvimos música portuguesa dos anos 80 e 90 (desde Jorge Palma a Xutos), mas eu sei que na escola os põem a ouvir o Anselmo Ralph. É como diz, temos de lhes dar alternativas, sem proibir, mas também sem permitir. Se não dermos alternativas, eles vão crescer a pensar que o lixo é que é bom. Assim, terão as ferramentas necessárias para um dia, com mais maturidade, poderem escolher aquilo que interessa. Ou assim espero!

    1. Também assim o espero…. Cá em casa também demos a regra dos dias, mas entretanto eles nunca mais pediram coisas más . Temos visto muitas séries e isso ajuda porque eles adoram e esquecem se do resto. Vimos a heidi, depois o dartacao, o tom Sawier e agora estamos a ver o Marco (que é tristíssimo mas eles adoram) . O Jacinto (o mais velho) descobriu os livros do asterix e está viciado … A ver vamos! Obrigada e beijinhos e boa sorte – experimente mostrar a heidi ( vende se na fnac) e ver cada dia um episódio . É lindo demais e eles não querem ver mais nada!!

      1. Obrigada, vou experimentar. Há uns tempos mostrei-lhe o Dartacão, não gostou, depois o Tom Sawer (fomos ver o teatro e tudo), mas foi sol de pouca dura, no entanto, acho que ainda era muito nova. Agora, aos 4 e meio, talvez já esteja na idade certa para perceber e gostar das séries da nossa infância! Beijinho

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