Os ocupados

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Vivemos num tempo de aceleração. Tudo se passa a correr e cada vez mais queremos que as coisas sejam rápidas. Arranjamos artefactos que nos permitam ser rápidos, sempre com a desculpa que somos muito ocupados. Cada um de nós se acha o mais ocupado, o mais atarefado (é ou não é verdade?). Se trabalha é porque trabalha, se está em casa é porque está em casa, se tem um filho único é porque tem um filho único, se tem três é porque já são tem três. Se tem um horário é porque tem um horário, se não tem um horário  é porque não há uma rotina. Se vai à ginástica é porque vai à ginastica,se não vai à ginástica é porque nem sequer tem tempo de ir à ginástica.
Enfim, são muitas as desculpas que temos para viver sem tempo. E então, a sociedade acelera para acompanhar os ritmos das pessoas, tornando tudo alucinante e impessoal.  Compra-se tudo feito. Os carros andam rápido. E as coisas, ou estão há distância de um clique ou é já uma “perda de tempo”. Está-se meses sem estar com os amigos. E a desculpa é sempre a mesma: ” Estou muito atarefada” ” Estou exausta” “Ando sempre a correr”.
E ninguém abranda. E ninguém pára para pensar que esse tempo, que dizemos que não temos, é tempo de vida que perdemos.
Vamos vivendo o dia a dia atropelados em tarefas, sempre com o mesmo discurso. Mas, se não temos tempo, é porque é tempo de repensar o tempo. De dizer chega, de voltar ao tempo onde nos sentávamos à mesa, nos juntávamos ao fim de semana. Que escrevíamos cartas (ou até mesmo que falávamos ao telefone sem ser para dar um recado mas para saber verdadeiramente do outro).
Temos de perceber que não nos devemos orgulhar de não ter tempo, mas pensar o que podemos fazer para voltar a ter tempo. Porque quando isto chegar ao fim vamos olhar para trás e  dizemos: passou a correr e ouve tanta coisa que eu não vi.
Não aprofundamos relações, não conseguimos ESTAR com o outro. Já ninguém faz um telefonema para dar os parabéns no aniversário de um amigo. Deixa uma mensagem no facebook.
Já ninguém manda um cartão de boas vindas a um bebé acabado de nascer. Faz um gosto no Instagram. Até responder a um mail se tornou complicado “desculpa, não tive tempo de responder…”
O nosso saber também ele está a ficar contaminado com este ritmo pois aquilo que acreditamos é aquilo que nos impingem aqui ou ali, que lemos transversalmente numas letras gordas numa qualquer rede social e torna-se verdade absoluta. Concordamos e, em vez de investigar, partilhamos com o mundo esse tal saber que nos pareceu fazer sentido. E assim se torna uma asneirada viral (ou uma asneirada total).
E assim lá vamos andando nós, muito depressa, desatentos e desfocados sem certezas de nada, mas com a certeza absoluta que somos mesmo muito ocupados.
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17 thoughts on “Os ocupados

  1. Como concordo com isto, mas com tudo, absolutamente impressionante… sinais horríveis do nosso tempo. Eu tenho uma relação amor-ódio com o tempo. E está tudo explicado nas palavras acima, Maria, tudinho. Agora vou dar-me tempo para almoçar… e refletir!

  2. Assino por baixo o seu texto, e vejo isso á minha volta.
    Faz este ano 5 anos que a minha família se mudou para o campo, foi uma decisão tomada por varias razões mas uma delas foi… a falta de tempo para os nossos filhos. Consegui mais tempo numas áreas mas perdi noutras…. Não é fácil gerir o tempo quer estejamos na cidade quer no campo. Mas há pequenas coisas que podemos e devemos fazer para ganhar mos tempo ao tempo. Algumas das questões que fala como não ligar mos aos amigos para felicitar mos no aniversário, faço questão de o fazer, é um principio. Todos os dias guardo 15 minutos para ler uma historia aos meus filhos ao deitar e tento brincar com eles nem que sejam 30 minutos por dia. As refeições são tomadas sempre em conjunto, sem TV, ou outras distracções….. para pormos a conversa em dia. Isto são só alguns exemplos, outros haverá. Se tenho tempo para tudo?.. não, não tenho mas dou prioridade a umas coisas em detrimento de outras ( se a roupa não estiver toda passada ou arrumada hoje, amanhã também é dia). Nos só temos uma vida e ela acontece a cada minuto que passa……. temos que aprovei ta los pois mais cedo ou mais tarde……. game over…

  3. Bem verdade. hoje ninguém tem tempo para nada, não se telefona aos amigos, sabem-se as novidades pelo facebook. Sou bem mais feliz desde que deixei o facebook.
    🙂 Obrigada pelo post pensava que o problema era meu 🙂

  4. Acho que passa muito por aí: deixar de ter orgulho em ter uma vida muito ocupada. E ter orgulho precisamente no contrário: eu tenho tempo!
    Mas foram anos e anos a moldar-nos para o contrário, a fazer-nos crer que andar a correr dá um certo prestígio (AHAHAHA!). No final dos anos 90, quando comecei a trabalhar, ainda se tiravam 4 semanas de férias seguidas. Aos poucos, começou a ser muito mal visto. Tenho amigos que me olham com desconfiança: que mundo é esse em que vives, onde podes tirar 4 semanas de férias seguidas? Mas é assim que me reconstruo-o para dar o meu melhor no ano seguinte. E o mesmo para o dia a dia (ainda não consigo viver num ritmo mais brando, mas todos os dias penso nisso, todos os dias tento um bocadinho mais, contrariando o raio desta mania).

  5. Olá Maria! Tenho andado a ler e a reflectir sobre a nossa relação com o tempo. Hoje o teu post caiu que nem ginjas. No fundo, todos somos um bocadinho viciados na adrenalina da aceleração. Devíamos perguntar-nos se ela não estará lá a tapar um vazio de sentido. Os milhares de afazeres a que nos propomos dão-nos a ilusão de que controlamos mais. Ironicamente, acabam por nos agrilhoar. Acho que o enfoque que fazes é certeiro: uma nova relação com o tempo tem que partir do interior, de uma maior consciência da relação que queremos ter com as pessoas e as coisas. Perceber que as nossas escolhas podem fazer dilatar ou comprimir o tempo. Sem desculpas, mas com paciência (porque não somos imunes à pressão imposta pelo mundo à nossa volta) devemos procurar dar tempo ao tempo em nós. Beijo!

    1. Olá Leonor , desculpa nunca mais ter respondido , mas não tive tempo – ahahah – estou a brincar , sou a pior a responder a comentários aqui no blog… Adoro que os façam mas depois não respondo . Adorei a “cena” no outro dia!! Beijinhos

  6. Concordo com tudooo! E o pouco tempo que temos agora, mesmo que nos esforcemos para o ter, muitas vezes não conseguimos, vai-se refletir no futuro, nos nossos filhos, que precisam tanto!Precisam de parar, brincar, sentir, ver coisas diferentes de telemoveis e televisões.Não me venham com conversas de tempo de qualidade/tempo de quantidade!O tempo para os “nossos”, filhos, família e amigos, tem de ser em QUANTIDADE!Parabéns pelo seu blogue que adoro!

  7. Ainda esta semana falava com o meu marido e com colegas sobre “back to basic”. É mesmo verdade. Lá em casa estamos a voltar ao tempo das cartas e dos postais. E as miúdas ficam doidas quando recebem cartas. É tão giro e tão simples. É tão fácil perdermo nos no tempo. E também tão fácil voltarmos “ao nosso tempo” obrigada por esta partilha.

  8. Tão certo e verdadeiro este post. Por razões profissionais tenho dias mirabolantes, em que chego ao fim do dia sem me aperceber, por o ritmo ser tão elevado. No entanto, assim que saio corto radicalmente com o trabalho (não é fácil, mas é algo que se consegue ir treinando) e só volto a pensar nele no outro dia de manhã. A rapidez profissional treina-me para conseguir incutir a devida rapidez nas tarefas da vida pessoal, contrabalançando sempre a minha vida pessoal, obrigando-me a estar mais quieta/relaxada por períodos específicos. Obrigo-me a ter momentos meus e momentos em família. Faço ponto de honra em comer sempre sentada – pequeno-almoço com os meus filhos e jantar todos juntos, sem TV, com música ambiente e sempre em conversa animada. O ano tem 52 fins-de-semana e alguns (poucos) dias de férias. Nestas horas todas vou arranjando tempo para estar com os amigos ou pelo menos para ir telefonando. Uma boa amizade mantém-se por muitos anos, nem que seja só com uma dedicação de poucas horas por ano. Há é que manter o foco e nos não deixar atropelar pelo tempo.

  9. como tudo o que escreves adoro a forma como o escreves, sem medo da verdade, saído do coração , e não é que tens sempre razão!
    Aqui em casa também vamos tendo ainda algum tempo, tenho uns dias em que me deito em cima da cama ( é sempre na minha que é grande) com um filho de cada vez , e conversamos sobre coisas da nossa vida, ficamos deitados a falar como num confessionário a contar coisas da nossa vida.. é tão bom

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