Sobre alimentação e sobre tradição  (ou divagação sobre a consciência alimentar)


  
  

Não é fácil para mim escrever o que vou escrever. Primeiro porque não é fácil falar sobre alimentação nos tempos que correm, em que existe uma completa globalização daquilo que comemos, sendo eu uma verdadeira amante das tradições alimentares portuguesas. Temos, por um lado os Mcdonalds e o lixo alimentar como uma parte integrante e quase transversal daquilo que se come (em maior ou menor escala), por outro a enorme proliferação de alimentos super naturais, super energéticos, super saudáveis que circulam de todas as partes do mundo para todas as partes do mundo.

Não vou falar sobre o peso ecológico que tem o transporte e exportação de todos estes produtos, que não são produzidos nem perto do nosso país, e não são só os açaís e quinoas da vida, pode ser uma simples banana ou uma melancia em Dezembro. Mas, do peso que tem para o nosso país a diminuição de consumo de alguns alimentos. Por exemplo, o leite – esse considerado  “veneno” horrível que só faz mal e que é completamente anti natura e altamente tóxico a partir do momento em que não vem da maminha da nossa mãe mas da maminha de uma vaca – não sei pormenores sobre assunto, mas sei que os produtores de leite estão a passar a pior fase de sempre, enquanto os ovos, esses, ainda não ouvi falar mas a julgar pelas fotografias que vejo nos instagrams de todas os chefs e gurus da alimentação saudável imagino que estejam a passar a melhor fase de sempre! – se calhar não era má ideia os produtores de leite transformarem as suas vacas em galinhas (ou então ponham as vacas a produzir batidos detox).

Enfim, a alimentação é um assunto que, se eu não tivesse algum cuidado corria o risco de ser o maior post da vida do seismaisdois, porque este assunto dá pano para mangas. Como podem ver aqui.
Agora “back to the point”. Ontem, quando publiquei sobre o fim de semana não mencionei a razão pela qual lá fomos (bom, mais a desculpa, porque as razões são muitas)

E…a partir daqui aconselho os mais sensíveis a não lerem, ok?

Fomos matar o nosso porco (sim, nós tínhamos um porco).

“Então Maria? Com a mania que és protectora dos animais e foste matar um porco?? Não estou a perceber nada….”

Sim, sou sobretudo pelos animais é verdade. Mas não sou vegetariana. Fui, durante 10 anos, mas já não sou. Como carne e dou carne à minha família.

Mas a carne é um assunto que não me deixa à vontade. Porque parece que só temos uma hipótese quando comemos carne: não pensar muito no percurso dessa carne – e eu, quando como e quando preparo comida para a minha família, faço questão de pensar. Pensar, principalmente no percurso do alimento que estou a confeccionar. Por isso temos uma horta, por isso fazemos o nosso pão, iogurtes, maionese e por aí fora. Por isso tento sempre ir à matéria prima mais prima que consigo. Por isso tentamos ter uma alimentação sazonal. Li há pouco tempo que, nos supermercados, devemos comprar o menos possível nos corredores do meio e consumir apenas aquilo que está junto às paredes porque é aí que encontramos aquilo que é mais fresco.

Há cerca de um ano escrevi sobre a carne. Prometi que íamos tentar só comer carne de animais que tivessem vivido com dignidade. Dignidade e sem químicos. Claro que, esta promessa comprometeu em grande parte o nosso consumo de carne, que reduzimos para mais de metade – e isso foi óptimo.

Eis senão quando os nossos queridos e grandes amigos Rita e Gonçalo, que nos conhecem tão bem, se lembraram de nos deixar criar um porco nas suas terras. E assim foi.

Já no ano passado tínhamos estado presentes neste momento que o Gonçalo faz um esforço por manter não só porque é tradição mas porque faz sentido e cria laços. Mas desta vez para nós foi mais a sério.

O nosso porco (que eu nunca conheci) estava a crescer desde o Verão até que, depois de uns meses bem alimentado, feliz e em liberdade com os seus amigos, chegou a sua hora (que eu não assisti). Foi um dia intenso, carregado de tradições – ai Maria de Lurdes Modesto pensei tanto em si – e emoções. Os nossos filhos (que embora não tenham assistido ao momento da morte) viram o porco por dentro. Aprenderam o que é uma bifana, um lombo ou um toucinho. Nunca vão pensar que a carne vem das embalagens do supermercado. Já sabem como é o processo natural. E, se um dia escolherem não comer carne vou, obviamente, respeitar.

O nosso congelador, está neste momento carregado de carne. De carne que sei como viveu, o que comeu e como morreu.
Querido porco: prometo que, a tua vida será honrada e que tudo o que for possível farei para que acabem como o sofrimento e maus tratos dos teus irmãos que crescem e engordam em produção intensiva, sem espaço para se mexerem, alimentados a antibióticos e outras porcarias. E, uma certeza tenho, tão cedo não volto a comprar carne de porco.

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5 thoughts on “Sobre alimentação e sobre tradição  (ou divagação sobre a consciência alimentar)

  1. tb tenho dificuldade em falar deste tema, até porque sou carnívora, e muito. se pudesse, e tenho noção de que n posso, comia um bife do lombo todos os dias, saberia-me lindamente mesmo repetindo o jantar, mas n só n quero, como sei que poderia quinar amanhã… tb sei que seria melhor comer o bife da vaca da quinta, mas já lhe tiro o leite e fazem por lá belos queijos, ás cabras tb tiramos o leite, mas os bifes têm que vir do talho… se sei como são mantidos, alimentados? n… mas n sei se quero muito saber. desde que o conheci há 13 anos que a carne é rara, contra a minha vontade lá está, mas os italianos vivem bem sem ela e como é ele que cozinha eu deixei-me estar a ver os vegetais a chegarem e a carne desaparecer… mal ou bem, ela já n abunda por aqui, no entanto, que ninguém me tire o bife grelhado mal passado quando ele tem trabalho pela noite fora e os miúdos (coincidência) vão para os avós… tiram-me isso, tiram-me… bom, tudo não, mas algum e bom. isto para dizer… tento proteger o mundo de outra maneira, reciclo tudo, n gasto água, poupo energia, fico louca se vejo desperdícios mas a vida n me permite crescer porcos. 😉

  2. Maria, acho muito mais honesto comer um porco com qual se tem uma ligação pessoal do que comprar, sem pensar no assunto,uma embalagem de carne anónima. Ultrapassa-me o facto de as pessoas que comem carne ficarem horrorizadas com a mera ideia da matança de um porco (já para não falar em matadouros). Também não subscrevo as teorias de que o leite é mau, o glúten tóxico e o açúcar venenoso. Tóxica é a margarina e o leite magro de vacas carregadas de antibióticos. Se consumirmos sazonalmente, localmente e, sobretudo, menos e de melhor qualidade (produtos honestos e sem aditivos), acho que poderemos dormir tranquilos.

  3. Na minha adolescência assisti várias vezes nas férias do verão à matança do porco lá na aldeia. Era tudo na versão tradicional e o bicho berrava que se fartava! Era horrível.
    Por outro lado, após isso, criava os tais laços que falas e dava-nos o conhecimento. Aproveitava-se tudo e fazia-se tudo.
    Ainda hoje quando vou à aldeia, lá está na arca, o porco, no fumeiro as alheiras e os chouriços, etc.
    Também me faz cada vez mais impressão comer carne, então as de supermercado assustam-me. Disseste tudo: pelos antibióticos, pela falta de dignidade. No entanto custa-me comer um bicho com que criei laços… e percebo por isso a parte em que dizes que nunca viste o teu porco.
    Este texto e o comentário da Constança ajudaram-me a fazer as pazes com alguns pensamentos que tenho, acreditem.
    Por exemplo não consigo comer os coelhos que a minha avó cria.
    E nesta fase da minha vida tenho o projeto de ter horta, pomar e pinhal. E ando na luta para que de animais tenha apenas cabras, porque ajudam a manter o pomar e o pinhal limpos, e galináceos pelos ovos.
    Parece que vou ceder ao meu marido e vamos comer as galinhas e os patos. Será? trata-los com carinho e depois come-los?
    Vamos indo e vamos vendo!

    1. É mesmo um assunto difícil. Não é nada fácil a opção de comer os animais com quem criámos laços, mas é na verdade muito mais justo e consciente. Boa sorte com o novo projecto (que inveja 🙂 e boas decisões ! Beijinho

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