Para que nunca lhes falte nada

Ando incomodada com esta ironia de sabermos que somos a primeira geração capaz de acabar com a pobreza e, ao mesmo tempo, vivermos uma sociedade onde o excesso é  tal que  já perdemos o controlo. Não conseguimos assimilar tudo aquilo que ouvimos. Não conseguimos consumir tudo aquilo que produzimos (não devia o investimento feito no excesso de produção canalizado para outro fim, como: dar de comer a quem tem fome, com dignidade – e não  contentarmo-nos a doar os restos que não já não precisamos?)
 Faz me impressão a produção massiva, da carne aos legumes (mesmo não  falando do impacto ambiental disto tudo – assunto para um outro post..) Faz me impressão a descartabilidade da roupa, dos brinquedos, dos sapatos. Faz me impressão a massificação da informação. Rápida, fácil, frenética.
 Tudo porque o cidadão tem de estar satisfeito. O cidadão tem de ter tudo, tudo ao seu alcance. E o tudo é muito.
Temos de  ter a certeza que, se o Manel for às compras,   pode escolher entre as dezenas de pão de sementes ou  as dezenas de pão  branco, entre o pão com passas e o pão sem passas. Sem glúten, sem sal,  fatiado, inteiro  ou às bolas. Temos de ter a certeza que, se a Francisca quiser ver televisão, tem 117 canais à disposição e se, mesmo assim nada a satisfizer, a Francisca pode pôr para trás. Ou para a frente. Ou alugar. Ou comprar, logo ali, outro canal.
Entediar a Francisca é que não, pobre Francisca!
Em casa, a Teresa tem de ter a certeza que os seus filhos podem escolher entre iogurte líquido ou sólido. De morango ou de ananás. E, se por acaso as bolachas se acabarem a Teresa tem de ir ali comprar mais – senão os meninos ainda ficam com fome –  e ali entre o pequeno almoço e a hora de almoço dá sempre uma fome dos diabos.
Precisaremos mesmo  disto tudo?
Li há dias um texto que falava de ambição. E do facto da ambição dos pais estar a prejudicar a infância dos filhos. Ainda não estou certa da minha opinião sobre  ambição, porque também não estou certa do que é ambição. Embora saiba bem o que quero a nível profissional: quero trabalhar no que gosto, bem e com gosto (será isto ambição?). Quero viver como penso. Como falo e como sinto.
Mas se pretendo trabalhar mais e mais para “subir”, crescer ou ganhar mais? Não. Lamento mas se é isso ambição, então não a tenho. No entanto acho que sou muito, mesmo MUITO, ambiciosa no que trata da minha realização pessoal (leia-se felicidade).
Sinto que vivemos numa era, imagino que pelo excesso – que passou de excesso a  essencial  e em que o suficiente nunca é suficiente – em que queremos sempre mais (não falo de mais amor, mas de  tudo o resto). Com a desculpa de querermos dar o melhor à nossa família. “Só quero que nunca lhes falte nada?” Mas o que é não faltar  nada? Não  terem fome, terem  saúde e amor. Ou terem sempre bolachas, 150 canais, mil actividades, o brinquedo do anúncio e a carta de condução aos 18 anos?
Não desisto de pensar que o amor é aquilo que de melhor temos para que “não lhes falte nada” (embora saiba que ninguém vive só de amor).
Continuo a acreditar (sempre  fui optimista) que o futuro será à custa de  mudar de rumo e de mentalidade e de todos percebermos o que queremos mais e o que queremos menos:
Menos consumo. Menos excesso. Menos superficialidade. Menos banalização . Menos vaidade. Menos indiferença. Menos passividade.
Mais amor. Mais cultura. Mais posições. Mais relações. Mais criatividade. Mais consciência. Mais dignidade. Mais esforço.
 E tenho a certeza que um dia todos vamos perceber que o excesso é para os preguiçosos.
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29 thoughts on “Para que nunca lhes falte nada

  1. Adorei maria. Às vezes penso nisso também. De como o novo (na verdade velho) modo de vida simples, slow e minimalista, com que me identifico é consequência desse excesso de tudo. Como se estivessemos enfartados. E ao destralhar, no meio da sensação de libertação e leveza que tenho quando vejo alguns sacos de coisas que saiem lá de casa, tb bate às vezes a vergonha.

  2. Toda a razão Maria! É isso mesmo! Não respeitamos o nosso ritmo nem o dos miúdos… Todos iguais, sempre a correr, a fazer as mesmas coisas, a comprar os mesmos excessos… Tenho saudades de aceitar o que vem e não ter de escolher! Que grande incerteza e que grande chatice se tornou a vida…

  3. Aqui está retratado um dos grandes dilemas da minha vida. Do “muito” que damos aos nossos filhos no que toca a coisas materiais e do “pouco” que poderemos estar a dar noutras áreas. Das mensagens que podemos estar a passar (que eu gostaria de passar), mas que podem fazer com que fiquem à margem da sociedade de hoje e no que isso poderá prejudicá-los, ou não… Penso se este sentimento que eu tenho de querer ser minimalista nalgumas áreas da minha vida (noutras ainda estarei muito longeee), de me livrar de muita da tralha existente, de não querer mais tralhas não é próprio da minha fase de vida e se será correcto estar já a “impigír” aos meus filhos uma forma diferente de estar na vida. Não terão eles de passar pelo mesmo que eu passei para mais tarde então chegar às mesmas conclusões? enfim… muitas dúvidas.

    1. Penso nisso também. Mas nós nunca tivemos acesso a este excesso na nossa infância e, mesmo assim, estamos a tentar mudar. Até porque se assim
      Continuarmos o mundo não vai aguentar o ritmo. E acho mesmo que cada vez vão ficar menos “à margem” por terem uns pais assim. É uma questão de acreditar que as mentalidades estão a mudar – e estão! e de saber que lhes estamos a dar o que achamos melhor, para eles e para o planeta. Beijinhos !

  4. Maria, sente se no seu blog a coerência desses seus pensamentos e o esforço que fazem para os pôr em prática. Vejo crianças felizes, amadas e livres. Penso como a Maria, mas infelizmente, cedo muito facilmente…

    1. Margarida, pode ter a certeza que também cedo em muita coisa. Mas as mudanças fazem se de pequenos gestos e, por isso,
      Ponho em pratica o que acredito até ao ponto que me sinto capaz e, se cada um fizer isso já é uma
      Mudança brutal.
      Beijinhos e obrigada!

  5. Que força de mulher!!! Que inspiração!! Nem imaginas ( desculpa a intimidade) como te admiro, como gostava de ser mais “Maria”, como gostava de ceder menos, muito menos, de me focar no que importa, no que interessa … Mas tento e sempre que venho aqui e vejo a tua pureza, a tua força… uma luzinha em mim acende-se e volto a pensar que vou ser capaz, um pouquinho todos os dias…

  6. Maria, que texto inspirado e motivador. O que eu quero pra mim, pra minha família? O que importa de fato? O que interessa? Como contribuir para um mundo mais justo, mais igualitário? Nossa, tenho tanto a fazer… Obrigada. Bjs

  7. Hoje queremos dar tudo para nossos filhos, como se isso fosse sinônimo do amor que sentimos por eles. Mas se calhar baralhamos as prioridades…. Penso muitas vezes exemplo do meu pai. Abdicou de vida profissional confortável para uma profissão que o realizava -ser pescador. Não havia luxos, não havia brinquedos em massa, mas tive melhor das infâncias, não tive mota ou roupa de marca, mas sempre pude andar a vela, sempre tive meus pais perto e presentes, ……. E hoje agradeço as prioridades e como nos formaram, tento dar isso meus filhos, mas é tão difícil.
    O consumismo é avassalador, e os miúdos exigem, não agradecem e muitas vezes não dão valor a tudo o que têm…este blog permite-nos equacionar e repensar nossas escolhas 😉

    1. Os miúdos exigem porque exige uma sociedade por trás que exige também. Há dias foram à escola dos meus filhos distribuir uma qq coleção de papelaria. Saíram de lá todos doidos a querer fazer a coleção. E nós? Somos os pais “maus” que não vão a correr comprar esta coleção que não é mais do que lixo.
      Sou a favor dos brinquedos, daqueles que eles brincam,
      Que duram que não são uma simples coleção descartável que só querem porque todos têm.
      Beijinhos Mary

      1. Cá em casa (quatro miúdos, os dois mais velhos já adolescentes) sempre tivemos uma regra, que continuamos a cumprir, em relação às cadernetas de cromos:

        Só as dos mundiais e as dos europeus de futebol (ou seja, só de dois em dois anos) e cada uma para levar até ao fim. A partir dos 5/6 anos aprenderam os números, a trocar com qualquer miúdo que lhes aparecesse pela frente (escola, jardim, rua, praia, etc), os países, as capitais e as bandeiras. Mais velhos (10/12) aprendem porque é que há países de “primeira” e países de “segunda” até no futebol (os de primeira conseguem naturalizar os jogadores dos de segunda para melhorarem as suas selecções – muitos casos, mas o da Suíça é sintomático) e discutimos a (in)justiça de assim ser. Etc etc.

        E tudo comprado com mesadas/trocos dos recados que vão fazer à mercearia/trocos que os avós vão dando… Quando faltam poucos cromos mandamos vir, é praticamente o único investimento “parental”.

        Têm todas as cadernetas, completas, e bem estimadas e manuseadas (plastificadas). Autênticas enciclopédias!

        Às outras dissemos não desde sempre. Começaram por pedir mas perceberam que as mais giras eram mesmo as do futebol 😉

  8. “Menos consumo. Menos excesso. Menos superficialidade. Menos banalização . Menos vaidade. Menos indiferença. Menos passividade.
    Mais amor. Mais cultura. Mais posições. Mais relações. Mais criatividade. Mais consciência. Mais dignidade. Mais esforço.” Mais nada a dizer….

  9. Obrigada. É isto.
    Este texto tem tudo e dava para dizer tanto. Senti saudades da vida mais próxima do campo que vivi, em que tudo é mais simples. Fui habituada a que tudo o que se dá não faz falta e mantenho a minha intransigência contra a maior parte do acessório, mesmo com o rótulo da má fita. Ainda assim, sei que é pouco.Esforço-me, mas sinto que é sempre pouco. Não consigo fazer metade do que a Maria faz. Adorava conseguir fazer tudo e não falhar permanentemente. Há pouco tempo li a seguinte frase: “Que me interessa um futuro melhor se não consigo viver um presente bom?” Por isso, e como sou optimista, continuo a tentar. Do seu lado, pode continuar a ser um exemplo! Sabe? Ajuda!

  10. na “mosca”, Maria!!
    defendo e aplaudo todos os seus ideais.
    luto e tento segui-los, desde há muito. ao ponto de (por vezes) me acharem “radical” 🙂 🙂 🙂 ? 🙂 🙂 🙂
    consigo e com carinho

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