O que ainda podemos  consumir sem culpa (ou uma ode às leguminosas)


Esta é uma questão muito complicada e que eu não consigo (nem posso), de todo, dizer o que será bom fazer (ou comer). Primeiro porque não gosto de impingir nada ninguém. Segundo porque não sei.

Quando mais lemos e mais nos  aprofundamos nestas áreas mais complicada fica a tarefa de pôr o jantar na mesa. Principalmente quando a mesa é grande e o dinheiro é pouco.
Então na hora de fazer a ementa semanal debato-me com algumas incoerências e dúvidas: Quero seguir três S’s fundamentais na minha alimentação  (saudável, sazonal e sustentável), respeitar milhões de R’s fundamentais nos meus ideais de habitante da terra (reduzir, recusar, reaproveitar, recriar reutilizar, repensar, re…) e ao mesmo tempo tirar o maior prazer da hora da refeição. E agora? Agora, estou feita:
A maioria da carne é produzida massivamente, os animais vivem em condições deploráveis (se é que se pode chamar viver). Levam com antibióticos,  injecções e  alimentam-se de produtos carregados de quimicos e outras coisas que vamos tentando fechar os olhos. A minoria da carne (ou seja a boa, ou menos má) torna-se incomportável  à maioria dos bolsos, sobretudo se a quisermos comer dia sim, dia não.
O peixe que vem do mar já era  (ou então   vem só que ficamos com o m€$ comprometido por causa de   uma refeição apenas), o salmão já nem cor de rosa é. Os peixes congelados e embalados já nem se fala.
A soja é geneticamente modificada (75% de toda a soja produzida mundialmente).  É boa para os bolsos, mas péssima para o ambiente e para a saúde ainda não há um consenso.
O tofu vem da soja. O seitan vem do trigo. O trigo também já não é o que era.
O milho, esse então nem se fala. Já nem conseguimos encontrar na maioria das embalagens  a informação se é ou não transgénico – provavelmente porque todo o é. Avisam-nos se eventualmente não for, sendo infelizmente esta a rara excepção.
Os ovos ainda se aguentam (se soubermos interpretar as suas letras). O arroz e a massa também nos vão safando.
A fruta, coitada, até verniz leva para ver se a malta a escolhe. Fruta feia nem entra em supermercado. Felizmente que há esta alternativa.
Os legumes são o que são. Achamos que nos fazem bem mas também já não há certeza de nada. A obrigação de produção massiva e exagerada obriga a uma produção totalmente anti- natural e claro, carregada de agrotóxicos.
O óleo  já era. O de palma nem se fala – e sem sabermos consumimo-lo em quase todos os produtos confecionados, é o mais barato e extremamante prejudicial para o ambiente. O de girassol é o que é. O de amendoim do mal o menos, mas mesmo assim saudável duvido que seja. Temos o de coco – muito na moda agora e que eu própria uso- mas daí a ser  sustentável também não tenho a certeza.  De onde vem? Há coqueiros na Europa? E então, de quão longe  vem este óleo? Quantos milhares de quilómetros fez para cá chegar e quantos litros de gasóleo foram gastos no seu transporte.
Valha-nos o azeite. Português e saudável (ou não? !)
O que é processado é porque é processado, o que não é dá trabalho.
O leite e derivados já nem são conversa.
(Oh diabo que isto agora  se começa a complicar…)
Imagino que quem tenha mais possibilidades  financeiras tenha a tarefa  (um bocadinho) mais facilitada. Mas, então e nós?
Lá em casa não tenho a solução  e semanalmente me debato com milhares de  dificuldades. Tenho a certeza que lhes (nos) quero dar o melhor. O melhor para nós e para o ambiente. O melhor para o ambiente mas  também barato e bom. Mas não sei muito bem o que isso é. Ou se isso existe. Acho que estou a por demasiadas condições. O melhor mesmo é estar quieta e não pensar mais no assunto.
Não…. não  que eu não gosto de estar quieta e muito menos   de pôr assuntos para trás das costas.
Ok. Sei que consigo alguns legumes da horta – e que existem projectos como este para quem não tem horta e que  ajuda bastante no que diz respeito aos verdes e encarnados. Mas… e o resto?
Sem  termos a certeza se estamos  a fazer o melhor, à nossa familia e ao ambiente, optámos  por centrar a nossa alimentação em três regras – sem fundamentalismos, comemos de tudo – só que:
1. Pouca quantidade daquilo  que sabemos menos bom;
2. Muita variedade;
3. Muitas leguminosas
 Quando digo pouco não significa passar fome mas reduzir o consumo daquilo que sabemos que é menos bom (ou seja, na verdade consumimos todos os produtos acima mencionados, mas em pouca quantidade) – isto permite-nos ao mesmo tempo, melhorar a qualidade desses produtos e ao mesmo tempo reduzir a quantidade daquilo que sabemos que respeita menos os 3 S’s referidos acima , mas que ainda assim continuamos a (querer/ precisar de) consumir .
Ou seja, lá em casa a carne, o peixe  e a soja não são o centro das nossas refeições. Embora vão aparecendo (uma, duas vezes por semana, normalmente).
O prato tem, a todas as refeições de estar variado, colorido e completo (proteina+ hidratos+ vitaminas+ sais minerais)  nota: atenção que não sou nutricionista e completo o prato apenas por intuição!
E é aqui que entram as rainhas lá de casa.
As leguminosas.
As leguminosas, até  que me provem  o contrário (please não provem..) compõem 2/3 das nossas refeições (bem antes de terem declarado 2016 o ano internacional das leguminosas!)
 Primeiro: há uma enorme variedade delas: das lentilhas aos feijões, passando pelo  grão, sendo que as suas receitas dão pano para mangas.
Segundo: as leguminosas promovem a agricultura sustentável e contribuem para atenuação  e adaptação do solo às alterações climáticas.
Em terceiro: pelo menos lá em casa, as crianças aderem lindamente a todos os tipos de leguminosas (cada um tem a sua preferida, mas gostam de todas!)
E, last but not least (antes pelo contrário) são ao mesmo tempo muito acessiveis financeiramente e ao mesmo tempo  cheias dfibra e de vitaminas e ainda ricas em minerais como o ferro e o cálcio.
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15 thoughts on “O que ainda podemos  consumir sem culpa (ou uma ode às leguminosas)

  1. Olá Maria! Será que podes colocar algumas das receitas que falas com as leguminosas? Parece-me uma ótima opção para variar da carne e do peixe. Ensim, por aqui também é uma preocupação muito grande aquilo que cozinho todos os dias para os meus filhos e para mim também. Muito obrigada

  2. Gosto muito de te ler e já cá vou passando há algum tempo. Mas destes textos então sobre as dúvidas existenciais de quem quer tentar comer saudável sem dar conta do planeta nem da conta bancária matam-me por tanto terem em comum com o que penso. Quanto às leguminosas, tenho com elas uma pequena questão: são todas propícias a… gases. O que, cá por casa, é um problema.

    P.S. Uma pequena confissão: fui professora de inglês de dois dos teus meninos, a Luz e o Benjamim. São uns queridos!

    1. Oh a sério?! Eles sabem lindamente inglês, agora já percebo porquê! Hehehe
      Relativamente ao problema das leguminosas, não sei se é pela habituação do nosso organismo cá em casa não há esse problema – pelo
      Menos assim causado directamente pelos feijões… até quando estava a dar de mamar comia e nunca causou qualquer tipo de gazes ou cólicas aos bébes… beijinhos e até breve!

    2. Se colocar durante o cozimento um pedaço de alga kombu esse problema resolve-se, para não falar nos sais minerais que introduzimos no feijão… 😉

  3. Cada vez é mais dificil ir ás compras😅 Ou são os plásticos, ou o açucar, ou as gorduras, ou a carne de vaca, o biológico ou não biológico!!! Um dia destes desisto de fazer compras😄

  4. Por aqui também é uma preocupação, ma pessoa já não sabe para que lado se virar. E parece que quanto mais sabemos pior ficamos…Mas é como dizes, para quem não tem o poder económico para só comer biológico, o segredo é variar!

  5. Escreveste tão bem aquilo que sinto… É tão assustador, principalmente quando estamos a alimentar os nossos filhos… Adorava ter mais receitas de leguminosas, por favor, para também as introduzir com maior regularidade cá em casa. Um beijinho, M.

  6. E quem come leguminosas nem precisa de carne. Também adoramos, lá em casa. Cortei mesmo com a carne vermelha. Frango e peru também só uma, duas vezes por semana no máximo e depois vêm as refeições vegetarianas e o peixe. Não comemos marisco. Enfim, cada um tenta, dentro das suas possibilidades, fazer o melhor que sabe por si e pelos seus. E é muito bom termos essa preocupação, ainda que sem stresses, para a cabeça não dar um nó. ♥ Faço umas almôndegas de requeijão com nozes que são dos nossos pratos preferidos. E agora estou cheia de fome 🙂 Beijinho

  7. As leguminosas tb reinam por aqui.
    Quanto à proteína animal, se tivermos em conta que um adulto activo precisa de cerca de 0,8g de proteína por kg de peso, torna-se mais fácil ajustar o orçamento à opção de consumir carne e peixe sustentável e de qualidade.
    O consumo de proteína culturalmente considerado normal é um absurdo, totalmente desajustado às nossas reais necessidades, prejudicial à saúde e também à carteira. Menos é mais!

  8. Olá Maria, muito obrigada por este post e pelas partilhas que tem feito. Tento comprar algumas coisas biológicas, mas confesso que tem sido difícil. Na zona onde moro não existe muita oferta/muitas alternativas. O que há é muito mais caro; vou alternando, sempre tentando fugir das frutas muito bonitas e enceradas de que falas. Uma pessoa conhecida que tem banca na praça disse-me que conseguia algumas frutas biológicas, mas não me garante que são isentas de químicos; têm selo e tudo, mas… Reforço o pedido que já fizeram de receitas com leguminosas. Mais uma vez, obrigada.

  9. Maria, este é um tópico que adoro e também fico à espera de saber que pratos costuma cozinhar com leguminosas. Deixo algumas sugestões que cozinhamos frequentemente: sopa espanhola de lentilhas lentejas con chorizo (normal ou vegan); sopa creme picante de lentilhas; caril de grão com folhas verdes da estação e arroz; salada de grão com batata, salsa e cebola (azeitonas e ovo cozido são opcionais); masala de lentilhas; caçarola finlandesa de lentilhas, cenoura e couve no forno; masala de feijão frade; guisado de feijão preto com salada das américas; guisado de feijão vermelho ou branco com couve lombarda e arroz (ovos escalfados opcionais); ervilhas com ovos escalfados coentros e arroz; favas guisadas com chouriço (normal ou vegan) coentros e arroz. Agora é do que me lembro. Adoro, continue! Ana da Finlândia

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