Divagação sobre o Capitão Fantástico ou Alexander Supertramp


Já tinha dito mais atrás que falaria aqui sobre filme “O Capitão Fantástico”.
Mas afinal quem sou eu para fazer uma reflexão sobre um filme? Ninguém, é certo. Mas a verdade é que o filme deu-me que pensar e, como tal, deu-me que escrever. E embora não saiba muito bem por onde começar vou começar, com algum custo, mas vou tentar. Lembrem-se que reflicto enquanto escrevo. Pelo que perdoem-me os erros de raciocínio. Sou psicóloga e, confesso, que a teoria que estudo é muitas vezes diferente da teoria em que acredito (as emoções não são uma ciência exacta) que é diferente da teoria que pratico (que não é teoria, mas sim prática). E por isso torna-se difícil escrever sobre determinadas posições e opiniões. E, mal comecei a escrever este texto pensei. “Não avances Maria. O tema é delicado, trabalhoso e os limites pouco claros.”

Mas vá ‘bora lá, o Francisco saiu, os miúdos já dormem, não tenho nada para coser e acabei de terminar o livro que estava a ler.
(Atenção! A partir daqui este texto pode conter spoilers)
Quando o filme termina uma das questões principiais que me surge é: quais são os limites para se viver fora da sociedade? – A mesma pergunta me fiz no filme “Into the wild” – filme este que me surge com uma espécie de parte 1 do Capitão Fantástico.

Mas, durante o filme sou constantemente confrontada com outras questões:

A primeira, que debatemos com o nosso filho mais velho, que também viu o filme foi: com quem é que nós somos mais parecidos?! Claro que bate a vergonha quando percebemos, que apesar do esforço, somos a família “certinha” que vive na cidade. Pois claro. Fazemos parte da sociedade. Vivemos cheios de tecnologias e… compramos aquilo que comemos (embora às vezes bem tentemos contrariar isto), protegemos os nossos filhos de algumas informações, conceitos e verdades. No entanto, passamos o filme a querer ser como a família Fantástica. Ou não?

Nós, que tanto nos esforçamos para nos aproximar da natureza, das matérias primas, de cultura geral, livre e aberta para os nosso filhos. Até onde queremos ir? Qual é mesmo o nosso limite? Mais uma vez qual é o limite para viver “fora” de qualquer sociedade.

Não sei. Não faço ideia. Haverá limite? O que é a educação certa e a educação errada? Poderemos limitar as coisas assim? Certo versus errado?

E a escola? Deverá haver uma escolaridade obrigatória? A teoria diz me que sim, e faz todo o sentido que assim seja – criar igualdade de oportunidades para todas as crianças – Mas às vezes penso: quem é a sociedade para dizer e decidir o que é o melhor para os meus filhos? Não devia ser de cada pai essa decisão? Não, e depois se os pais não tomam a melhor decisão. Pois. Mas afinal quem é que sabe o que é a melhor decisão. E o que é a melhor decisão? Claro que sei que quero para os meus filhos uma maior aproximação à natureza, que sejam livres a pensar e a brincar e que não vivam na dita “carneirada” com quem muitas vezes a sociedade se confunde.

E de repente veem-me à cabeça milhares de perguntas sem resposta. Palavras soltas e conceitos complicados: Liberdade. Sociedade. Cultura. Sucesso. Felicidade.

A partir do momento que estes conceitos diferem de pessoa para pessoa é difícil chegar a uma resposta. Ufa, ainda assim valha-nos a Declaração Universal dos Direitos Humanos.

Enfim. Filme. Estava este pai a ser protector para os seus filhos? Ao “escondê-los” da sociedade e a prepará-los para uma vida muito mais plena, sem consumo, sem dinheiro, sem excessos. Diria que sim. Diria que não. Diria que não sei. Dava-lhes amor e união familiar e isso, à partida é suficiente mas… o que falta? Ou será que não falta nada?
De repente parece-me que são as relações que faltam. Porque eles, não estando em nenhuma sociedade não se relacionam com mais ninguém e aí, para mim, o Capitão Fantástico fica comprometido. Bem como o Chris (ou Alexander Supertramp).

Sim. Acho que é aí. Não são os conceitos, objectos e situações que o pai os expõe, pois parece-me que ele tem competências para os preparar para tal. Nisso ele é mesmo fantástico.
Enfim. Felizmente, o final do filme dá-nos uma paz incrível. Perceber como ele deu a volta à situação, continuando a viver com a natureza, para a natureza. Em família mas mais… em sociedade.
Porque apesar de tudo, da sociedade esperamos o melhor possível. Mas dos pais esperamos que ensinem os filhos a questionar sempre a sociedade. E, dos filhos esperamos que consigam mudar a sociedade:  (Pre)conceitos, pensamentos, mentalidades e hábitos. No fundo queremos que eles um dia mudem o mundo.
E, no meio da trapalhada toda deste texto esta é a única coisa que digo sem duvidar.

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4 thoughts on “Divagação sobre o Capitão Fantástico ou Alexander Supertramp

  1. Olá Maria, eu adorei o filme e o pensamento que me ocorre logo é “nem tanto ao mar, nem tanto à terra” ou “nem 8 nem 80”, porque é mesmo isso, eu desejo para os meus e para mim a situação final do filme, um equilibrio saudável entre a dita sociedade moderna e tudo aquilo que a natureza nos pode dar. Mas olha, desde o primeiro ano de escola do meu filho que pesquiso muito sobre ensino doméstico, porque tenho sentido que a escola não se adapta às crianças, elas é que têm de se adaptar a conteúdos que não fazem sentido, a regras que não fazem sentido, a horários que não fazem sentido. Estou mesmo muito decepcionada com a escola. Mas não tenho coragem de arriscar, tenho medo de lhe estar a retirar algo que lhe faça falta e também o meu marido acha piada à ideia, mas não me parece que esteja totalmente de acordo

  2. Obrigada pelo post, estou mesmo curiosa. Aconselharam-me o filme e agora com mais vontade fiquei de o ver (adorei o Into the wild , filme e banda sonora).
    Quanto à escolaridade, às vezes penso nisso, mas, invariavelmente concluo que temos de dar às crianças certos instrumentos que lhes permitam, mais tarde, poder escolher o que fazer e por onde ir. Em casa dificilmente a generalidade da população teria condições para tanto. Por isso, acho que a escolaridade mínima serve o propósito.
    Tema diferente é a forma como a escola está organizada, os programas curriculares (fico atónita com as alterações sucessivas dos programas e respectivos conteúdos). Na verdade, acho que as linhas orientadoras dos programas (debate animado esta semana pelas “recomendações” feitas pelo Plano Nacional de Leitura), nem sempre se revelam ponderadas, parecendo esquecer que os alunos são os seus principais destinatários, mas esse, esse é outro tema.

  3. Um tema complexo e delicado, tão delicado que poucos ousam comentar e também não vou ser eu…lol
    Não vi o filme, mas tenho curiosidade. Só sei que na minha casa quero muito conseguir que os meus filhos (filhas) adquiram as ferramentas para que no futuro sejam adultos felizes (se calhar o que todos os pais querem)… eu própria a beirar os 40 mudei muito a minha maneira de ver a vida (este blog fez-me VER tanta coisa) e cada vez mais quero abraçar a simplicidade das coisas… cada vez menos para poder ser mais… tem sido um lema.
    Bjinhos

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