Que farei quando tudo arde


dia 1

o começo:

Hoje o dia começou com uma longa viagem a partir de Lisboa e um desvio de quase hora e meia num engano de percurso.

Partimos quatro psicólogas com um misto de sensações: Sentimento de missão por um lado ( porque não conseguíamos  ficar indiferentes ao que se estava a passar no nosso país). E de independência, por outro: Quatro miúdas metidas num carro de mochila às costas, sem filhos e sem maridos durante 3 dias (deixamos os 4 maridos incríveis com os nossos 13 filhos (?!?!) que ficaram em Lisboa) tivemos momentos na viagem que até nos esquecíamos para onde íamos, às vezes até parecia que íamos numa viagem de finalistas. Estávamos com toda a pica e garra, mas não tínhamos bem noção para o que íamos .

 Chegámos a Tábua já a bater a hora de almoço. Impressionante o negro da viagem, parecia que estávamos a chegar a Marte com todo aquele calor e aridez. Negro. Quilómetros e quilómetros de negro. Tudo negro. 

Assim que chegámos e feitas as apresentações, só queríamos  deixar o edifício da Câmara Municipal de Tábua – que tão calorosamente nos recebeu – para irmos finalmente para ” o terreno”.

Fomos “enviadas” para a Junta de Freguesia de Covas – cujo edificio e carros também arderam e onde fomos recebidas pelo  presidente, o João Nuno. 

Atendemos, hoje à tarde mais de 20 pessoas. Nas suas casas ardidas, nos pastos queimados, nos barracões desfeitos.

Estive muito tempo com um casal de pastores, e fui pastora por mais de uma hora, pelo meio das paisagens negras (fomos em busca de um pedaço verde para as mais de 40 ovelhas “adoçarem a boca”) 

Ardeu-lhes tudo, as máquinas, a mota, as arcas e os tanques de leite – sua única fonte de rendimento. A palha, as batatas o azeite e a horta. O senhor António conseguiu salvar o gado arriscando a própria vida (como tantos outros que por aqui temos  conhecido…) apagando cada labareda que por lá entrava com… vinho ( muito cedo naquela noite ficaram sem a água – assim que acabou a electricidade acabou a água, que vem dos poços)

Diz o senhor António com um sorriso positivo “vão-se os anéis, ficam-se os dedos, não é?”

A história do senhor António foi a primeira de muitas que ouvi hoje. 

“Ardeu-me tudo” talvez a frase que mais ouvimos durante todo o dia e toda a noite. E ardeu. E  o tudo para uns é diferente do tudo para outros.

Ninguém dorme por aqui – há mais de dez dias – dizem que fecham os olhos e vêem as chamas, as labaredas. Um clarão. Lembram-se dos gritos, das explosões e do barulho do fogo, “Tudo o que apanhava era dele”. As pessoas estão exaustas e assustadas , mas não perdem as forças. Precisam de falar de partilhar a sua dor. De ser ouvidas. 

Daquela noite, 15 de Outubro estas pessoas nunca se vão esquecer. 

Vou agora dormir com o desejo que também   ninguém , por este país fora, se esqueça o que se viveu aqui nesse dia (e do que se perdeu).

  a noite:

Eles sonham com o fogo, eu sonho com eles.

Dia 2

Hoje chegámos cedo “ao terreno”. Todas sentimos que as pessoas precisam e querem muito ser ouvidas. Continuamos com o presidente da Junta de Freguesia de Covas – talvez uma das pessoas mais extraordinárias que conhecemos. Conhece cada pessoa, cada história, cada casa. Cada perda. Todos o adoram e ele todos adora. ” ele é bom demais” dizem alguns.
Percebeu-nos às 4 e levou cada uma até àqueles para os quais lhe pareceu que tínhamos mais perfil. Eu fiquei quase sempre com pastores. Levo a alcunha de “pastorinha” bem no fundo do coração. 

Os pastores perderam muito. Os que não perderam gado perderam o pasto. Os fardo de palha. As máquinas. Os taques. “Ardeu-me tudo” continua a ser a frase mais ouvida por aqui. 

Aqui as pessoas precisam de tudo. Mas precisam de pouco. Porque o tudo delas em nada se assemelha ao nosso tudo. Perderam as casas e nelas o passado e o presente. Perderam os seus barracões e com eles o seu sustento, a sua vida, o seu futuro. Os seus animais – incrível a ligação destas pessoas aos animais – tantas que arriscaram a vida para salvar as ovelhas, o cão ou o gato. A tristeza do João que salvou dois dos seus cães mas houve um que lá ficou. 
  Continua a ser difícil descrever tudo o que estamos aqui a viver. Continua a ser difícil escrever e passar para o papel tanta emoção ao mesmo tempo. Assimilar tanta histórias, tantas perdas, tantas chamas. 

Escolhi não falar aqui nas histórias que temos ouvido. Todas diferentes. Todas elas pessoas marcadas para sempre. E todas nos marcaram para sempre.

Dia 3

da insónia: 

Acordo às 6 com um sentimento de revolta. Hoje vamos embora. E agora? Onde andam os políticos do nosso país? Onde estão os abraços calorosos (gratuitos, pretensiosos) das eleições autárquicas ? 

“Só queríamos um abraço!” Disseram tantos. 

Fizemos um levantamento das necessidades emocionais e materiais de cada um. A curto prazo. A médio prazo. É tanta coisa e isso deixa-me ansiosa. Isto é uma de Calamidade pública! Sinto que o estado  não tem capacidade para lidar com uma catástrofe desta dimensão. Sabemos que está tanto a ser feito e ainda assim não chega. 

Por aqui vivia-se uma auto- suficiência pura, verdadeira e orgulhosa. Agora nada. Só o trauma (e que trauma tão grande), e a vontade (e que vontade !) de seguir em frente. E os sorrisos…

Gostava de cá ficar até ter a certeza que está tudo verde e recuperado. Penso nisso um bocadinho a sério. Mas agora temos mais um dia pela frente. Muita gente para conhecer ainda, outras tantas para nos despedirmos. 

do regresso: 

Partimos as quatro com um nó na garganta. Não gostamos de despedidas. Fizemos relações para toda a vida. Com as pessoas, com os técnicos, com aquelas terras. Umas com as outras. Sabemos que vivemos, juntas, uma das mais intensas experiências das nossas vidas. Ficámos marcadas para sempre pelas mais de 60 pessoas com quem falámos estes dias. Levamos “Covas” no coração. 

Hoje:

Hesitei muito partilhar este diário. Sentia-o demasiado pessoal. E decidi guardar para mim a história da Natividade, da Purificação, da Maria da Glória. Do António, do(s) Jorge (s) do Carlos e do Luis. Da Maria João. Da Raquel ou da Teresa. Mas é deles, agora, metade do coração. 

Obrigada Junta de Freguesia de Covas pelo apoio e confiança. 

Obrigada gabinete de Acção Social da Câmara Municipal de Tábua pelo conforto e carinho com que receberam estas quatro voluntárias durante estes três dias.

Obrigada amigas Mafalda, Alexandra e Vera: Levamos Tábua tatuado no peito.

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9 thoughts on “Que farei quando tudo arde

  1. Maria, nunca comento os posts dos vários blogs que sigo (e são muitos!). Sabe-me bem estar aqui deste lado, anónima e sem opinião. Mas desta vez não consigo!
    Somos bombardeados com tanta “informação”, pelos media, pelos politicos que os usam e que nos usam, que aos poucos nos vamos perdendo, endurecendo os corações, cada vez menos sensíveis ao sofrimento alheio.
    No meio de muitas lágrimas e soluços – Maria, obrigada por me devolver parte de mim!

  2. Não consigo imaginar a vida de quem tudo perdeu!! Como vão recomeçar? Como eu gostaria de ser como vós, pôr-me a caminho e ir ajudar! Sozinha, sinto-me impotente e com falta de coragem para seguir! Meu Deus perdoai os fracos e dai coragem a quem dela tanto precisa!!

  3. Maria, cheguei aqui há pouco tempo e quando te leio sinto que estou a falar com uma velha amiga. Mas hoje, fiquei com um nó na garganta e um sentimento de orgulho, Bem haja e obrigada.

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