Fim de tarde e massa fresca

            

Morar num segundo andar com um jardim cá em baixo, resulta muitas vezes numa certa preguiça em ir para o jardim passar o final do dia, ainda por cima havendo sempre tanto que fazer em casa. Mas às vezes apetece deixar as tarefas domésticas para trás e ir. A roupa pode ser estendida amanhã. O pó pode esperar. Os brinquedos espalhados podem ser arrumados no fim da noite,  quando eles forem dormir. O jantar destinado para o dia é rápido de fazer. À tarde está-se melhor fora do que dentro de casa (as sopas e as restantes coisas já foram despachadas segunda feira) .

Então, casa de pantanas, avançamos para o jardim. A horta  precisa de nós, no verão mais do que nunca. Os meninos às vezes também têm preguiça de descer, mas depois de  irem adoram  lá estar. As brincadeiras de exterior que adquirimos a pensar nas férias que se aproximam (devagarinho, muito devagarinho mas aproximam) têm sido um sucesso. Raquetes, guerras de água e até o famoso jogo da “petanca” que eles tanto gostam de jogar (e eu também) têm feito os finais de tarde diferentes e divertidos. Chegará o dia em que, enquanto eles brincam eu fico a ler o meu livro (chegará?), mas por enquanto o livro continua a enfeitar a mesinha de cabeceira e eu alinho nas brincadeiras de rua com eles e tento evitar que a Jasmim coma  a gravilha.

Quando chega a hora de subir para fazer o jantar, percebo que na ementa  temos “Massa com gambas”. Como não temos massa, decidimos rapidamente fazer uma massa fresca. Quando digo rapidamente vocês vão pensar “ela agora elouqueceu de vez…” Mas não. Há coisas que parecem muito mais complicadas/ demoradas do que são na realidade. A massa fresca é uma delas.

A receita que costumo usar é a proporção de 100g de farinha por cada ovo. Se quisermos uma massa mais “rica” trocamos um ou dois dos ovos por duas ou quatro gemas. Para quem tem a máquina de massa o processo fica muito simplificado. Esta foi a minha irmã que nos deu, já há muitos anos e tem tido muito uso. Depois de bem amassada, e de repousar 15 minutos, dividimos a massa em partes e passamos pela máquina para estender até ficar com a grossura desejada. Depois, é só escolher se queremos lasanha, fettuccine ou esparguete e passar a massa estendida na máquina. Para quem não tem máquina, pode fazer manualmente com um rolo para estender e  depois com um cortador de pizza ou até com uma faca cortar a gosto.


    

Watermelon love

(não sei o que me anda a dar para os títulos em inglês…)


    



Se tivesse de fazer um top 5 daquilo que mais gosto no Verão, a melancia faria certamente parte dele. É a minha fruta preferida, desde criança. Em adolescente passei por uma fase em que achei que o que queria para o meu futuro era vender fatias de melancia nos festivais de Verão. Apesar de nunca ter concretizado este futuro, continuo a achar a ideia fantástica. Quem sabe um dia destes ainda me apanham nessa …

Os meus filhos vão pelo mesmo caminho e, a partir de Junho existe uma gaveta no frigorífico só dedicada a esta enorme, fresca e deliciosa fruta. Apesar do seu tamanho, nunca dura muito cá em casa.

Quando vi esta receita fiquei imediatamente a imaginar o seu sabor e percebi logo que seria uma combinação perfeita . Hoje resolvi experimentar e todos podemos confirmar que é mesmo MUITO boa.

O livro foi a minha irmã que deu ao Francisco de presente de anos. E, publicidade à parte, é excelente. São as receitas que o famoso Ferran Adrià faz para o pessoal (daí “family meal”) do elBuli. Tem 30 ementas e, cada uma é composta por entrada , prato e sobremesa, todas elas descritas pormenorizadamente – mesmo género “fotonovela”. Para além disso dá sempre as quantidades para 2, 6, 20 ou 75 pessoas. O que para nós é perfeito (nós os dois, nós os 6, uma mega Cena ou uma mega festa!).

Mas voltando à melancia. Esta forma de servir melancia é tão fresca que refresca tanto como um mergulho no mar. O que um mergulho no mar num dia de calor faz ao nosso corpo por fora, esta melancia faz por dentro.

A receita é muito simples, simplesmente marinar a melancia, cortada aos cubos em sumo de limão com açúcar, durante meia hora (levei ao lume o sumo só até dissolver o açúcar). Num almofariz esmigalhei os rebuçados de mentol. Para servir é só colocar muito gelo picado numa travessa, dispor os cubos de melancia por cima e , no fim salpicar com os rebuçados esmagados.

Cá em casa, foi um sucesso, de tal forma que tinha feito apenas um quarto de melancia mas rapidamente tive de fazer outro quarto para a sobremesa do jantar…

Maionese e Ketchup

       

A ideia é só uma. Sermos o mais auto suficientes possível. Num prédio. Numa cidade. Não é  fácil, mas é possivel. Temos um sonho para concretizar: um dia ter uma quinta e conseguirmos avançar ainda mais para trás no percurso daquilo ir consumimos.
Por enquanto andamos para trás até onde nós é permitido. Falta-nos ainda muita coisa, o moinho para a farinha, falta-nos a vaca para o leite, colmeias para o mel que usamos tanto, galinhas para os ovos e uma horta tão grande onde conseguíssemos plantar TUDO aquilo que queríamos comer.
 Por enquanto, enquanto não nos é permitido largar de vez a vida na cidade, tentamos consumir as coisas o mais próximo da matéria prima, o mais “prima” possível .
E por isso,   gosto sempre de saber  e de experimentar fazer tudo. Não há sensação de maior poder do que saber que conseguimos fazer  determinada coisa e que não precisamos de a comprar pronta. Torna-se um vício.
 Percebe-se que tudo dá para fazer, e que assim poupamos uns quantos E’s , já para não falar no gozo que dá, saber como se faz e, depois consumir aquilo que fizémos.
Há uns tempos li que o ketchup é saudável. Ora, lá em casa os meninos gostam muito de ketchup. Mas duvido que aquele comprado já feito seja assim tão bom. Bem como a Maionese. Porque não transformar estes dois molhos gordos e cheios de conservantes, espessantes e corantes nuns molhos caseiros e saudáveis.
E assim é. A maionese há muitos muitos anos que não compramos. O Ketchup é uma novidade.
A maionese
A maionese é taõ fácil que até os meninos já sabem fazer. Assim quando eles querem,   preparam os ingredientes e eu só tenho de dar com a magia da varinha (eles acham mesmo que é magia, de repente um mísero ovo e um bocado de azeite transformar-se numa deliciosa maionese!)
– 1 ovo
-200dl de azeite virgem extra
-1 colher de chá de mostarda (fica especialmente boa se a mostarda for dijon)
– umas gotas de vinagre
– uma pitada de sal
Colocar estes ingredientes todos num copo, colocar a varinha no fundo do copo e bater até ficar bem espessa. Guardar num recipente fechado no frigorifico.
O ketchup
O ketchup não é tão simples como a maionese, no entanto  esta dose é grande e depois dura bastante tempo no frigorifico. Esta receita foi a minha amiga Rita que me deu, e adorei logo, existem outras. Mas esta é mesmo, mesmo boa e fica IGUAL ao ketchup da Heinz.
1 kg de tomate maduro com pele
180g de pimento encarnado
130g de cebola roxa
2 dentes de alho
100gr de vinagre de vinho tinto
1 folha de louro
noz moscada
pimenta e sal
100 gr de mel
1/2 de chá de piri piri
Juntar o tomate, o pimento, a cebola, o alho e 50gr do vinagre num robot.
Levar ao lume 40minutos com o louro.
Tirar o louro e juntar os resto do vinagre e dos restantes ingredientes mais 15minutos ao lume.
No final bater tudo novamente.
Guardar  num frasco no frigorifico.

Pratos limpos

        

Com este artigo, provavelmente perderei mais de metade dos meus leitores mas, ainda assim vou ter de o escrever.
Espero que ninguém se zangue.
O assunto é a alimentação. 
Sempre achei que tinha uma alimentação saudável. Não consumo comidas prontas, nem lanches empacotados. Tento ter uma alimentação variada, rica em saladas, legumes, leguminosas. Evito gorduras hidrogenadas, conservantes, antioxidantes, espessantes e corantes. 
Adoro cozinhar, inventar e variar. Adoro que o meu filho Benjamim me peça todos os dias para fazer lentilhas, e que o Jacinto não consiga comer uma sanduiche sem estar cheia de alface. Gosto que sejam crianças que gostam de tudo e que não torçam o nariz quando vêm qualquer coisa diferente. Que me pedem que faça os “meus “queques quando há um lanche na escola. Que querem levar as minhas barras de cereais para um piquenique. Que sabem que as goluseimas são uma excepção (e não uma proibição).
Mas, de há uns tempos para cá que ando um pouco baralhada e desencontrada com aquilo que ofereço à minha família. De repente, dei por mim a não publicar no blog uma fotografia da ementa semanal porque tinha “Bacalhau no forno” e “salsichas com couve” em vez de “quinoa com rabanetes” ou “pudim de agave com framboesa “. 
Então dei início a uma viagem pelo mundo da “nova” alimentação saudável. Decidi que tinha de mudar a minha alimentação e da minha família. Açúcar é veneno. Leite só de amêndoas. Gluten free. Super alimentos. Quinoa. Chia. Goji. Stevia. Fora o açúcar e as farinhas refinadas. Comprei livros, emprestaram me outros.  Demasiada informação resulta em demasiada contradição. Andei baralhadíssima. O que é que posso? O que não posso? O que não devo? De repente já não fazia bolachas nenhumas, ficava sem ideias para escrever a ementa. Nem pãozinho caseiro me parecia “bem” oferecer aos meus filhos.
Percebi então, nesta viagem, três coisas:
A primeira é que este tipo de alimentação faz muito sentido, é mesmo saudável e cria em todos hábitos de vida e de alimentação conscientes, saudáveis, ricos naquilo que é realmente importante. (embora pudesse, agora divagar sobre o factor sustentabilidade – que considero tão importante – e que aqui deixaria logo de ser alimentação consciente, pois que consciência é essa que nos faz bem ao corpo e mal ao planeta?).
A segunda é que, definitivamente, não é para mim. Não só o meu bolso não consegue suportar os preços desta alimentação, como também não consigo ser coerente e confecionar “apenas” este tipo de alimentação. 
Para mim, excelente de vez em quando, porque adoro variar os tipos de alimentação que faço. Esta é sem dúvida mais uma opção. 
A terceira é que não  me sinto identificada com este tipo de alimentação. Tenho de ser sincera. Gosto de ser coerente.
Gosto de cozinha tradicional portuguesa. Gosto de comida mediterrânica. Gosto de pão.  Gosto de ervilhas com ovos escalafados. Gosto de bacalhau à brás. Adoro inventar, dar a volta ao texto. E, por isso gosto também de comida indiana, vegetariana, japonesa e italiana. Mas gosto sempre mais da nossa. Gosto de azeite. Gosto de coentros. Gosto de tomate. Gosto de fazer bolos e bolachas (gosto principalmente que os meus filhos levem para a escola aquilo que foi feito por mim)  – dizem que é bom o meu bolo de chocolate e os meninos também gostam. Faço um bolo por semana. Não me peçam para o trocar por Muffins de beterraba. Não me peçam que olhe para as 150gr de açúcar que o meu bolo leva e as 100g de farinha como um veneno. 
Já fiz, experimentei e até gostei, mas não é a minha praia. 
Caseiro, sem excepção. Português, a maioria das vezes. Sustentável, sempre que posso.  Sazonal, de preferência. Maria de Lurdes Modesto. Sempre.