Sobre ler

Não sei porquê, há um mecanismo qualquer que nos parece querer tornar um bocadinho mais “estúpidos” depois de sermos mães e pais. Super amorosos, felizes e sensíveis. Mas mais estúpidos.
Lembro-me bem, antes de ter filhos de ficar arrepiada de ouvir grupos de amigos a falarem o tempo inteiro sobre os feitos extraordinários dos seus filhos, compararem aquisições, discutirem fraldas.
Lembro-me bem de ver casais “cools” e divertidos que de repente se tornavam velhos e betinhos. Pessoas que num abrir e fechar de olhos passaram de ouvir músicas punk aos berros no carro e para a última colectânea infantil do canal Panda.
Deixaram de sair à noite, de convidar amigos para jantar, deixou de se poder fumar num raio de 5km do seu rebento.
Passaram a deitar-se cedo para estarem “fresquinhos” no dia seguinte e nem sequer bebem um copo a mais sob pena de serem uns piores pais no dia seguinte. Só fazem amor às escuras, debaixo dos lençóis e bem depressa – não vá um dos petizes ter um pesadelo e entrar pelo quarto a dentro.
Sempre tentei não ser assim. Não gastar as “noitadas” com os amigos como se fossemos um grupo de “pais anónimos”. Sempre me recusei a ouvir músicas infantis – deixo esse trabalho para a escola – e tento, quando não estou com os meus filhos, abrir a cabeça a tudo o resto. Claro que às vezes não é fácil –  porque é bom viver o mundo das crianças com os nossos filhos e porque hoje em dia a invasão infantil não tem limites desde o obrigatório autocolante do “bebé a bordo” à sopa passada e hamburguers em forma de coração ao jantar. E, quando damos por nós estamos no festival do Panda a furar para chegar à primeira fila ou a contar os dias para a estreia do Madagáscar 8. (Toda esta conversa já me está a dar ideias para um outro post…)
De qualquer forma, faço os possíveis por defender a nossa vida “adulta” (Maria, a incoerente volta ao ataque – “tanta coisa e faz um blog sobre a sua família tendo o principal foco nos seus quatro filhos… que tangas!”). Claro que isso nunca chega, há sempre coisas que adoramos mas deixamos de fazer – e é sempre mais fácil reparar nas coisas mais imediatas, nas coisas que nos façam sentir mais “cools”, e ir para a praia à hora do calor a cantar o “Charlie don’t surf” em vez de ir de manhãzinha ao parque infantil ao som do “Jardim da Celeste”…
Então, e ler?
E ler? Onde é que fica? (há quem diga que todos os dias devemos ouvir música, ler um pouco e apreciar um  bom quadro – concordo)
Sempre adorei ler e sempre li muito. Mas, há 9 anos e meio que ler deixou de fazer parte dos meus dias. Acho que conto pelos dedos das mãos os livros que li em quase 10 anos. Que desgosto! Todos os anos penso – para o ano será melhor, no próximo Verão já vou conseguir ler. Ler à noite, ler na praia. Ler ao fim da tarde.
Tenho saudades de ler livros. Comprar livros, devorar livros. Estou farta de desculpas, ter sono, não ter tempo e ter outras coisas para fazer, porque ler leva-nos mais longe e, se quisermos, há sempre tempo. Arranja-se tempo e, na verdade, se um livro nos interessa mesmo e nos agarra, sem percebermos como, ele lê-se sozinho. Começamos, entramos na viagem e aqui e ali inventamos desculpas, arranjamos 5 minutos aqui, outros ali, uma ida à casa de banho que afinal demorou mais. Um serão de livro, dois serões de livro. Na sala de espera, na hora de almoço. Enquanto eles brincam no banho, enquanto eles bulham no quarto. E lá estamos nós, a viver um bocadinho do nosso livro que nos agarra e nos prende.
E, se um livro não nos prende, não vale a pena lê-lo. Não podemos querer ler um livro porque “parece bem”. Ou agarra, ou não agarra. E se nos agarra, não vamos querer largá-lo (quando era pequena li a colecção de “os cinco” toda seguida – sendo que em alguns momentos tive mesmo de pôr o termómetro no candeeiro e fingir-me doente para o poder acabar e não ter de ir para a escola – (glups! mãe, nunca lhe tinha contado isto pois não?!).
Por isso, tenho lido mais ultimamente. E não há livros certos nem errados, livros que se devam ler ou não. Existem livros para determinados momentos e circunstâncias da nossa vida. E para cada momento e fase que vivemos devemos ter um livro na nossa mesa de cabeceira. Sempre. Que nos acompanhe esse período da nossa vida. Que nos faça sonhar, sorrir e chorar. Que nos alimente o espírito e a alma.
Tinha pensado terminar este post com os livros principais que me acompanharam ao longo do meu crescimento, mas achei que vocês tinham mais do que fazer e então, estão com sorte vou poupá-los a essa maçada. Depois pensei em falar do último que li e do que estou a ler. Mas de repente esta semana as circunstâncias trouxeram-me um livro para as mãos.
Ontem li “Óscar e a Senhora Cor de Rosa”. Comecei e acabei. E hoje estou mais feliz.
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Meu querido mês de Junho


(Fotografias tiradas ontem , no nosso jantar -piquenique comemorativo do dia da Criança)
Mês de Junho, dia da criança, fim da escola, dos trabalhos e das regras. Arraiais, chinelos, sardinhas. Acabaram-se as rotinas, a alimentação saudável, a sopa.
Olá cerejas, cervejas, piqueniques. Este mês tudo é na rua. É mês de deitar tarde, acordar cedo. Dormir pouco, de janela aberta e acordar com o sol a bater-nos na cara. São férias sem ser  férias.  É praia sem ser fora. São sestas debaixo das árvores, nódoas de ameixas, e corados nas bochechas.
Tudo é alegre, tudo é feliz no meu querido mês preferido.
Bem vindo sejas, Junho.

 

Como se não tivéssemos mais nada com que nos entreter 


Já há imenso tempo que andávamos para concretizar esta ideia.

Quer dizer, na verdade a ideia não é nossa mas da nossa amiga Rute. Mal vi os pratos bonitos que ela fez fiquei logo com vontade de fazer igual e, ainda por cima já há muito tempo que me irritava, ter a nossa mesa de pequeno almoço com uma mesa feita por nós (ou melhor pelo Francisco)  as colheres também feitas por ele e depois uns pratos com pouca graça feitos sabe se lá bem por quem. Ou por ninguém.
Ainda tentámos fazer umas taças de madeira, mas (ainda) não temos as ferramentas necessárias para tal.
Então, juntámos o útil ao agradável e, com umas taças simples e brancas e uma caneta própria para porcelana cada um personalizou a sua taça de pequeno almoço conforme lhe apeteceu.
Ficou um programa divertido e no dia seguinte, uma mesa bonita. O processo é muito mais simples do que se possa imaginar. Com as canetas próprias é só pintar e levar ao forno 90 minutos a 160º.
A Jasmim ainda não fez o dela, nem o vai usar tão depressa pois corriamos o risco de ter cacos em vez de pratos.
O meu (dos triangulos) também teve uma batota. A ideia foi minha mas a execução ficou a cargo do Francisco – o meu jeito para desenhar é tal que nem afazer uma duzia de triangulos me arrisco.

Petição para fins de semana de três dias e dois vestidos


Assim sim, se curte um fim de semana.
Ao longo da vida tenho vindo a reparar que, apesar do excitamento  existente à sexta  feira à noite, com as infinitas possibilidades com que o fim de se apresenta, tudo se esvai num abrir e fechar de  olhos. Não dá praticamente tempo para sentar nem assentar. Em vez de pararmos aceleramos. Queremos conseguir fazer tudo. São dois dias e muitas vontades. Contrasensuais: Dormir até tarde. Aproveitar a manhã para passear. Estar em casa. Aproveitar o sol. Estar com os filhos. Correr 16km. Fazer uma noitada com amigos. Ter uma noite romântica com o marido. Deixar os meninos acordados até tarde. Fazer costura. Beber copos. Passar um domingo saudável. Ter moleza de fim de semana. Ou genica de fim de semana. Fazer panquecas, ovos quentes. Brunch. Almoço. Lanche.Piquenique.Há praia, há campo. Há a casa. Há trabalhos de casa. Há mimos. Há a horta para tratar. Há brincadeiras para fazer com cada um. E com todos.  Há sitios para visitar. Sol para apanhar e sestas para dormir. Há livros que ficam para ler, filmes para ver.
E assim, em dois dias todas estas possibilidades se desvanecem e, chegamos a domingo e pensamos “Já foi? Mas… ainda agora tinha todo uma infinitude de ideias e pouco mais fiz que apanhar brinquedos do chão.” E lá vamos nós, tentando fazer um ar descansado  e começar tudo outra vez, na famigerada segunda feira. Queremos fazer tudo e que não nos falte nada. Chegar ao fim e dizer que foi mesmo bom.
Mas assim. Com três dias tudo se torna diferente. Já dá para assentar. É sábado e no dia seguinte é um domingo que é sábado e depois é domingo outra vez.
E foi assim que, entre muitas outras coisas, fiz estes dois vestidos para as meninas e ainda comecei umas camisas para os rapazes.
Elas adoraram, como se pode ver. Estão a começar  a ficar viciadas em andar de igual. E eu, viciada em vê-as de igual.

sem nenhuma etiqueta

Ainda estou longe  (muito longe) de fazer toda a roupa lá de casa, embora  confesse que, quando comecei a costurar  o objectivo era mesmo deixar de comprar roupa ( na verdade no meu caso não se trata de comprar mas de herdar roupa comprada).

Como em tudo, lá em casa o nosso objectivo é comprar o menos possivel e fazer o máximo possivel (sempre até à materia prima o mais prima possivel).

Fazer roupa tem várias vertentes. Tem  a parte gira de sermos nós a dar o toque, tem a parte de realização pessoal e tem, sobretudo, a parte de ser sustentável e contra a loucura do consumismo  desenfreado e não responsável roupa  – todos sabemos o que se passa por trás do fabrico da roupa que usamos, (ou não? Quem não sabe veja este filme ou leia este )

As minhas roupas continuam a não ser perfeitas, muito pelo contrário mas conheço cada ponto costurado naquela peça que teve todo o meu empenho, amor e dedicação e por isso,  cada vez que os vejo vestidos com roupa que  fiz fico com uma óptimo sensacão de realização e de poder.
E, por causa desta campanha de sensibilização, que acho bestial, viro do avesso alguma da roupa que fiz para os meus filhos e, a ausência de etiquetas deixa-me profundamente feliz.