Os gorros e o inverno que ainda não veio

 

   



 

Não sei se isto é bom ou mau, mas algo me diz que é mau. Mesmo muito mau.
Este inverno que temos tido. Sabe mesmo muito bem, não sofremos de frio, poupamos casacos, aquecedores e gripes. É tão bom que até tentamos não pensar na gravidade que é. Um bocadinho parecido com a sensação que existe naquela fração de tempo, entre receber o ordenado e pagar as contas quando, apesar de sabermos que ele não chega para tudo sentimos que estamos muita bem  e compramos  coisas fora dos planos, mesmo tendo a certeza que vamos pagar por isso no final do mês.

Aquilo que sabemos que tem vindo a acontecer ao nosso planeta está a começar a notar-se na pele e chama-se aquecimento global

Por isso, não me permiti ficar muito contente com os dias lindos de Primavera com que Janeiro nos presenteou, por melhor que tenha sido. Na verdade faltou-me Invernar (roubei expressão ao MEC, achei bestial). Preciso (e a terra também) muito das estações do ano, por mais que prefira o Verão e o calor, porque são elas que nos dizem que está tudo a correr bem.
O tricot, para mim, faz parte integrante do Inverno e, tal como ele, este ano ficou comprometido. Estes gorros eram para ser usados durante os meses frios do Inverno. Na verdade, nem a Jasmim usou praticamente gorro (as fotografias de Inverno dos nossos filhos mais velhos, sempre enchouriçados e cheios de gorros)

Fazer gorros dá imenso prazer porque é (costuma ser) rapidissimo e numa noite com boa música e conversa despacha-se um gorro à vontade. Tenho toda uma coleção de gorros que faço sempre que não tenho mais nada em mãos.

Este ano, fui pondo sempre outras coisas à frente e os gorros foram sendo empurrados para aquelas noites sem mais nada (raras). Ficaram prontos ontem à noite, embora já cheia de sono por ter corrido de manhã muito cedo, quis ter a certeza que ainda os podem usar se por acaso o Inverno ainda nos vier visitar no mês de Fevereiro.

(Escrevo este post num final de dia  escuro e chuvoso e já deram bastante jeito no regresso a casa…)

Porque nem tudo é cor de rosa (mas na verdade quem é que gosta de cor de rosa?)


Este blog é, para mim, um espaço muito especial e privilegiado onde partilho momentos da nossa família, pensamentos que vou construindo e também algumas coisas que vou fazendo. Não foi fácil começar, encontrar-lhe um tom perceber o que fazia sentido aqui mostrar. Já tive vontade de desistir imensas vezes, tenho incertezas e dúvidas. A vários níveis. Um deles é encontrar  os limites daquilo que devo e que não devo partilhar aqui. E, por isso tento seguir um bocadinho o tom daquilo que me parece interessante e alegre mostrar.

Não sou de dramas nem queixumes e, muito menos, de os partilhar e por isso, o que acontece é que quem lê este blog fica muitas vezes com a ideia que a nossa vida é perfeita. Que sou de ferro, sempre bem disposta, a fazer cereais, a educar os seus filhos na perfeição e a fazer programas divertidos. A conciliar trabalho, vida familiar, social e amorosa com uma perna às costas.

Mas não. Embora seja nessa parte que me tento concentrar. E, por isso muitas vezes pode parecer tudo muito bonito e perfeito, porque quando nos focamos no que realmente interessa percebemos que sim, é perfeito. Não quero esperar por algo dramático aconteça para dar valor ao que tenho. Até porque, mesmo quando percebemos que alguma coisa corre menos bem, conseguimos sempre encontrar alguma situação que poderia ser pior. Trabalho muito para pensar assim. Não é só porque sou muito zen e feliz na minha vidinha. Temos os nossos problemas. Às vezes estou irritada, às vezes embirro com pessoas, às vezes a nossa casa de banho cheira a canos, às vezes apetecia-me não ter tantos desafios comigo própria, comprar chocapic e sopas já prontas. A nossa economia familiar é mais do que uma ginástica, é um trapézio sem rede  e um assunto que não me deixa dormir sossegada. Atraso contas, não compro nada mais do que as compras semanais essenciais. A saúde da família próxima também não está perfeita.
Mas não passamos fome. Mas não somos refugiados. Mas não estamos sozinhos.

Dá trabalho pensar assim, temos de estar sempre a ser positivos e a tentar perceber o que podia ser pior – e na verdade as coisas nem sempre são comparáveis assim tão linearmente: claro que podemos estar chateados  porque a máquina da loiça se avariou, mesmo que existam pessoas que nem podem ter máquina da loiça. Não temos de sentir remorsos por nos entristecer não poder comprar uns ténis novos para os nossos filhos, quando há pessoas que não têm casa. Podemos e devemos. Entristecer, irritar, chatear, implicar. Faz parte. Só não podemos permitir que isso tome conta da nossa vida.
E é isso que tento partilhar aqui. O trabalho que faço para ser feliz, para ter uma vida intensa e realizada, apesar dos contratempos que vamos tendo. Mesmo que isso implique esforço mental e físico. Mesmo que isso implique desfocar-me de coisas que, apesar de importantes, podem passar para um segundo plano para me focar naquilo que realmente interessa.

Os ocupados

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Vivemos num tempo de aceleração. Tudo se passa a correr e cada vez mais queremos que as coisas sejam rápidas. Arranjamos artefactos que nos permitam ser rápidos, sempre com a desculpa que somos muito ocupados. Cada um de nós se acha o mais ocupado, o mais atarefado (é ou não é verdade?). Se trabalha é porque trabalha, se está em casa é porque está em casa, se tem um filho único é porque tem um filho único, se tem três é porque já são tem três. Se tem um horário é porque tem um horário, se não tem um horário  é porque não há uma rotina. Se vai à ginástica é porque vai à ginastica,se não vai à ginástica é porque nem sequer tem tempo de ir à ginástica.
Enfim, são muitas as desculpas que temos para viver sem tempo. E então, a sociedade acelera para acompanhar os ritmos das pessoas, tornando tudo alucinante e impessoal.  Compra-se tudo feito. Os carros andam rápido. E as coisas, ou estão há distância de um clique ou é já uma “perda de tempo”. Está-se meses sem estar com os amigos. E a desculpa é sempre a mesma: ” Estou muito atarefada” ” Estou exausta” “Ando sempre a correr”.
E ninguém abranda. E ninguém pára para pensar que esse tempo, que dizemos que não temos, é tempo de vida que perdemos.
Vamos vivendo o dia a dia atropelados em tarefas, sempre com o mesmo discurso. Mas, se não temos tempo, é porque é tempo de repensar o tempo. De dizer chega, de voltar ao tempo onde nos sentávamos à mesa, nos juntávamos ao fim de semana. Que escrevíamos cartas (ou até mesmo que falávamos ao telefone sem ser para dar um recado mas para saber verdadeiramente do outro).
Temos de perceber que não nos devemos orgulhar de não ter tempo, mas pensar o que podemos fazer para voltar a ter tempo. Porque quando isto chegar ao fim vamos olhar para trás e  dizemos: passou a correr e ouve tanta coisa que eu não vi.
Não aprofundamos relações, não conseguimos ESTAR com o outro. Já ninguém faz um telefonema para dar os parabéns no aniversário de um amigo. Deixa uma mensagem no facebook.
Já ninguém manda um cartão de boas vindas a um bebé acabado de nascer. Faz um gosto no Instagram. Até responder a um mail se tornou complicado “desculpa, não tive tempo de responder…”
O nosso saber também ele está a ficar contaminado com este ritmo pois aquilo que acreditamos é aquilo que nos impingem aqui ou ali, que lemos transversalmente numas letras gordas numa qualquer rede social e torna-se verdade absoluta. Concordamos e, em vez de investigar, partilhamos com o mundo esse tal saber que nos pareceu fazer sentido. E assim se torna uma asneirada viral (ou uma asneirada total).
E assim lá vamos andando nós, muito depressa, desatentos e desfocados sem certezas de nada, mas com a certeza absoluta que somos mesmo muito ocupados.

1!


  
  
  

Parabéns querida filha ! Hoje foi a tua festa, o teu dia que passaste feliz e intensamente (sempre com a coroa que te fiz na cabeça- a sentires-te importantíssima !). As fotos são do dia  e da festa de hoje mas a história que conto passou-se ontem à noite.

Ontem adormeceste nos meus braços, no meio do rodopio tipico das nossas noites. Os teus irmãos cantavam e dançavam, ao som das músicas que iam tocando alto na nossa sala, como costumamos fazer todos os dias. Já estás habituada e há já um ano que fazes parte também desta maluqueira que é a nossa família.

Mas ontem, aninhaste-te a mim, indiferente ao barulho à nossa volta e, com a cabeça encostada no meu peito adormeceste. Eu deixei-me embalar por ti, pela tua calma e pela tua respiração e por uns momentos fechei os olhos e lembrei-me.

Lembrei-me como há um ano atrás chorei por te ver, linda, pela primeira vez. Lembrei-me como a nossa vida ficou ainda mais feliz e mais completa. Lembrei-me do momento em que, há um ano atrás, te puseram no meu colo, ainda com o cordão ligado a mim. Lembrei-me como nesse momento tive a certeza que esse cordão nunca iria ser cortado e que eu e tu estávamos ligadas para sempre.

Lembrei-me como foi emocionante ver os teus irmãos verem-te e amarem-te pela primeira vez num colo doce, excitado e trapalhão.

Lembrei-me como foram mágicos aqueles primeiros dias, só eu e tu , e como perdi a respiração na primeira noite em que estivemos os seis (mais um) no aconchego da nossa casa.

Lembrei-me de tudo o que cresceste neste longo e rápido primeiro ano da tua vida.

Lembrei me ainda de todos os caminhos que vais ainda percorrer . Lembrei-me de todas as conquistas que vais fazer nos próximos anos  e, como tem sido a melhor coisa que a vida me tem dado ver-vos, aos quatro, a crescer. E o contrasenso de vos querer para sempre pequeninos no meu colo.

Depois abri os olhos, olhei em volta vi os teus irmãos aos saltos e aos pulos e tu ainda dormir no meu colo. E percebi que sou a pessoa mais feliz do mundo só por estar ali naquele momento, com vocês, a lembrar-me do passado. E do futuro.

200


Ontem à noite, ao ver as estatísticas do seismaisdois percebi que este iria ser o 200º post deste blog, pelo que resolvi adiar o tema do “Molho de tomate” para uma outra altura e, já agora, aproveitar este número redondo, não só para festejar mas também para fazer uma refelxão desta coisa de ter um blog.

Na verdade nunca na vida imaginei vir a ter um blog. Sempre olhei para estas plataformas modernas de partilha de ideias numa posicão de leitora. Segui atentamente muitos blogs, alguns  que foram mesmo uma verdadeira inspiração no caminho que fui escolhendo para a minha vida – claro que o caminho já estava previamente escolhido, senão não teriam sido esses os blogs eleitos como favoritos mas, de qualquer forma, foram muito importantes na forma como tenho percorrido esse caminho – não são muitos porque nunca consegui estar muito tempo em frente a um computador, mas destaco, por exemplo, o melhor e dos mais antigos blogues portugueses  “a ervilha cor de rosa“. Inspirou-me no gosto pela costura, pelo tricot, pela nossa tradição e tantas outras coisas. Da América tinha a soulemama a inspirar-me em tudo o que fosse horta, diy e busca de um estilo de vida sustentável.

Às vezes alguns amigos sugeriam que fizesse um blog, fosse para partilhar o nosso planeamento semanal das refeições, fosse ideias de costura, tricot, horta ou simplesmente o dia-a-dia de uma família de 6 (na altura ainda 5).

Eu cá nunca me imaginei em tal posição: “Blogger”, confesso que até me arrepiava este nome (na verdade ainda me arrepia…) Tinha a certeza que iria ser desinteressante, que não tinha uma imagem “clean” e “fashion” como tantos blogs que andavam por esta internet fora. Para além disso, vinha a parte de me sentir pretensiosa. Tenho o pânico de passar a mensagem de “eu é que sei” “o meu estilo de vida é que é”. Não gosto de impingir nada a ninguém. Muito pelo contrário. Ao inicio achei sempre que, só pelo facto de ter um blog, iria passar essa mensagem. E isso aterrava-me. As dúvidas eram muitas. Havia ainda a questão da privacidade. Sabia que, ao ter um blog, estaria na verdade a “abrir as cortinas” da minha casa e da minha família. Porque, se o fizesse, só assim me faria sentido, (provavelmente porque a parte mais interessante da minha vida é a minha família) Então, muitas dúvidas depois, resolvi avançar e: “vamos lá ver no que isto dá!”

Depois da escolha do nome,  o sub título que o descreve: “Um blog sobre tudo feito por alguém que não sabe nada”  – na verdade é isso que eu faço e sou. Faço de tudo um pouco, mas não sou especialista em nada.
Agora 200 posts, 289.811 (?!?!!!) visitas depois, estou mesmo feliz por ter avançado com o seismaisdois. Não sei se inspirarei alguém nalguma coisa, mas uma coisa é certa: inspiro-me a mim própria.

Este blog ensinou-me a escrever, a pôr por palavras coisas que sinto que penso e que faço, coisas que nunca tinha sequer tentado escrever. Obriga-me a pensar, a olhar para trás e para a frente. A planear e a registar aquilo que vou fazendo. Na verdade, tenho mais um objectivo, para além de “fazer as coisas só por si”, que é partilhá-las com quem as lê e isso tem sido demais. Tem sido espectacular. Adoro saber que há pessoas que têm estado sempre aí desse lado a ler .

Confesso que às vezes me irrita o meu próprio tom (imagino a vocês!). Sempre feliz, contente e grata. É enervante mas é assim mesmo o meu tom e aqui não me faz sentido escrever de outra forma.
Claro que não sou sempre sempre assim, mas o que escrevo aqui são as coisas boas, porque elas são a base daquilo que quero para a minha vida e daquilo que considero realmente importante. E  é função da escrita também ajudar-me a olhar para as coisas menos boas e torná-las melhores. Assim como tento tornar este blog todos os dias melhor e mais próximo de toda a gente.

Até ao dia que se fartarem de me ler vou continuar aqui no mesmo tom. Enquanto perceber que continuam a gostar de vir aqui vou continuar a escrever para vocês. E para mim.

Parabéns seismaisdois!!