Os vestidos (ou a tradição já não é o que era)


Há já uns anos que tenho como tradição familiar, nas festas de aniversário fazer uma roupa para os quatro, para dois ou pelo menos para um. 

Este ano, e pela primeira vez não costurei nenhuma roupa para nenhum deles. Na verdade foram várias as razões para que isto acontecesse. Mas o sentimento de frustração não se deixou intimidar por elas. Eu que  sempre me orgulhei de ser capaz. Eu que sempre gostei do “Sim eu tenho quatro filhos e um trabalho e consigo costurar roupa para os meus filhos!”

Mas desta vez não consegui. Porque ainda estou a aterrar nos recomeços. Porque fui “passear ” uns dias para a costa vicentina. Porque tinha o primeiro post para o Slower. Porque não tinha dinheiro para comprar tecidos. Porque tenho três filhos a fazer trabalhos de casa. Três mochilas para gerir. Porque tenho estado cansada, de noite. Porque isto. E porque aquilo. 

Na verdade não tenho de ir a todas e não posso ser assim tão rígida e exigente comigo própria e com estas tradições a que me proponho. Porque na verdade não são elas que fazem a felicidade dos nossos filhos. Somos nós. Só nós. Todos e inteiros, nós.

Lembrou-se a Luz – ao ver me triste porque não ter um vestidinho mais arranjado para as vestir num dia de festa – que tínhamos uns vestidos, bem antigos, mas como novos, guardados para uma ocasião especial. E a ocasião era mesmo esta. E há sempre um lado bom nas coisas que nos parecem menos boas.. Os vestidos são lindos e elas lindas ficaram. E eu feliz e pronta para regressar à máquina de costura (sem a pressa da festa!)

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Três! (e seis e sete e dez…)

A Jasmim fez três anos. Pela primeira vez temos um filho a fazer três anos sem ter um bebé mais pequenino para nos aconchegar o colo.  Mas minha doce filha Jasmim, minha querida filha mais nova. Serás sempre a minha pequenina.  E tenho a certeza que, por mais que tu cresças vais sempre caber no meu colo (não tem fim o espaço do nosso colo).
Na verdade, muita coisa mudou desde que tu tem seis meses. Ser mãe de quatro filhos abaixo dos sete anos, e ser mãe de quatro filhos entre os três e os dez é diferente. Tu mudaste, nós mudámos. O manos mudaram. Todos crescemos. A vida mudou.  Sinto que há um ciclo – que dura há dez anos – que está a terminar. Um ciclo que, a certa altura, parecia que era para sempre. Gravidez, puerpério, fraldas, cheirinho a bebé. Primeiros dentes, primeiros passos, primeiras palavras. Primeiro dia de escola. Primeiro ano. Segundo ano.  A vida como que parada e os filhos, bebés, como o centro da nossa vida. E nós como o centro da vida deles. Terceiro aniversário. E a vida continua.
De repente não há fraldas. De repente dormimos toda a noite. De repente dar de mamar está longe. De repente temos três filhos que sabem ler e um filho mais novo com três anos. De repente percebemos que isto afinal é mesmo rápido. De repente temos tempo. De repente  a nossa cabeça tem espaço para outras coisas, mas não temos a certeza que queremos ter espaço para outras coisas.
Sinto-me bem no conforto intenso de uma casa cheia, barulhenta e cansativa. Ninho cheio. Mas percebo que não é uma realidade eterna. Ao contrário do amor que lhes temos. Não tem um fim este amor (nem o espaço do nosso colo). E é esse amor que queremos que levem com eles deste ninho em que vivemos. Queremos enchê-los de amor e criar memórias. Memórias doces que cresçam com eles. Que os acompanhe e lhes dê a liberdade de crescerem sabendo que estamos presos uns aos outros por um laço apertado. Para sempre.

 

Tudo está a começar


Outubro chegou. Com ele os dias mais curtos, as noites frescas, o estabilizar das rotinas. Os começos e os recomeços. O fim das férias tem um sabor agri-doce. A saudade das férias, a nostalgia do calor e dos dias passados em família junta-se ao sentimento acolhedor de regresso ao ninho e ao dia-a-dia tão único em cada família.

Este ano está a ser um recomeço tão lento quanto possível (quem chama Viver Devagar a um livro tem sempre desculpa). Há muita coisa nova lá por casa. Três escolas para quatros filhos. Três filhos para dois ciclos. Mudanças de horário, mudanças nas rotinas. Mudanças nos quartos.

Mas, nem só para os filhos acontecem as mudanças. Também nós usamos este mês para pôr em prática projectos novos, para tentar novamente projectos antigos. Para pensar projectos futuros. E também para partilhar convosco projectos presentes. Projectos que nos enchem o coração, a criatividade e a motivação. 

(surpresa!)

Imagino que todos os que me lêem por aqui já conhecem um dos meus blogs preferidos: O Slower. O Slower é escrito pela Filipa. A Filipa e eu conhecemos-nos por causa disto dos blogs (que cena!) e tornámos-nos, durante este último ano muito amigas . Foi então que ela me falou de um sonho que tinha para o seu blogue. Deixar de ser um blogue pessoal e torná-lo numa plataforma colaborativa. Um site que promova um estilo de vida slow, simples e sustentável. A ideia, por si só já me parecia espectacular. Mas, melhor ainda.. a Filipa convidou-me a fazer parte deste projecto – com o qual tanto me identifico. Escusado será dizer que… nem hesitei. Por isso, a partir de hoje podem encontrar-me por aqui  também! A nossa ideia é criar uma rede, gerar um movimento, descobrir uma tribo. Para isso esperamos também contar com a vossa participação e colaboração. Sabemos que não temos todas as respostas (de todo!) mas queremos levar-vos inspiração para viver o dia a dia de forma mais sustentável e mais simples. A mudança será gradual, mas é com muito orgulho e empenho que anunciamos, hoje, o arranque desta nova plataforma.

Para mais informação espreitem aqui.

Espero que gostem destas noticias e… bons (re) começos!

Desperdício Zero parte II

(este post tem de ser complementado com este que fez na semana passada um ano que foi publicado).
Tem sido um  longo caminho este do desperdício zero. Caminho esse que já tínhamos começado a percorrer há alguns (bons) anos atrás – bem antes de lhe chamarmos desperdício zero –  e, embora nos tenhamos mantido fieis às decisões que tomámos, nem sempre é um caminho fácil. Umas vezes não conseguimos fazer tudo, outras vezes apetece-nos desistir. Às vezes há uma excepção, outras vezes as excepções acontecem vezes de mais. Às vezes as excepções deixam-nos frustrados e com sentimentos de culpa. Mas, com mais ou menos desvios o caminho vai continuando. Mesmo quando naquele dia nos esquecemos do saquinho para ir as compras. Mesmo quando passamos um verão inteiro a produzir muito mais lixo por semana. Mesmo quando isto. Mesmo quando aquilo. Os desvios são mais que muitos.
Mas é, sem duvida muito recompensador esta busca por uns caixotes de lixo mais vazios. As noticias relativas ao uso de plástico, à produção  de lixo, de têm sido avassaladoras. O Trump a boicotar  o acordo de Paris, os glaciares a derreterem, os animais a morrerem.
A única coisa que podemos fazer, na pequenez da nossa insignificancia perante o mundo sinistro  do poder e do dinheiro é arregaçar as mangas, fazer o melhor que conseguimos e passar essa mensagem aos nossos filhos e àqueles que nos rodeiam. Mesmo que isso dê algum trabalho. É o mínimo.
Neste novo início de ano e de rotinas demos mais alguns  passos em frente no que diz respeito ao consumo responsável e desperdício zero.
Mudámos radicalmente a nossa forma de ir às compras. Já há muito tempo que sabia que esta era uma das pedras no sapato no nosso caminho.  Mas, como sou um bocado resistente a mudanças, sobretudo a mudanças que alterem a nossa rotina familiar, estava difícil de dar este passo. A ida semanal ao supermercado com lista e ementas feitas era, sem dúvida, um facilitador de rotina. Uma só ida, tudo comprado não se pensa mais no assunto.
Agora as compras mudaram cá em casa e, ao contrário do que estava à espera, está a ser muito simples. E acreditem que os caixotes de lixo e reciclagem já diminuíram bastante.  Vai parecer uma loucura enumerado como está aqui em baixo mas na verdade não complicou – de todo – a nossa rotina como pensei que fosse acontecer. Antes pelo contrário. E a questão de  comprar alguns produtos em maior quantidade  acaba por se uma mais valia. Ficamos apenas com as compras rápidas e locais que encaixam muito bem no nosso dia a dia.
O planeta agradece. O nosso corpo também.
Desperdício zero parte 2
1- Uma mudança tão simples e económica que pensamos “como demorámos tanto tempo para a fazer isto”: O detergente de lavar a loiça desapareceu. Mas não desapareceu para nos dar trabalho a fazer um qualquer detergente caseiro. Simplesmente passou a ser o sabão azul e branco o novo detergente da loiça lá por casa.  É só esfregar um pouco na esponja até fazer uma espuma e lavar a loiça normalmente. Um sucesso.
2 – O desodorizante tradicional desapareceu da nossa lista de compras e consequentemente do nosso caixote do plástico. A “pedra de alume” à venda em lojas de produtos naturais custa cerca de 7€ e penso que dura à volta de um ano (embora conheça quem tenha a mesma há quase dois anos). Até ver (:/)os resultados são óptimos, com a parte boa que não cheira nem a suor nem ao cheiro enjoativo dos desodorizantes tradicionais.
3 – O creme hidratante passou a ser o óleo de côco. Confesso que não foi amor à primeira vista e que (para mim) não funciona  muito bem na cara – mas de resto, estamos a adorar. Tanto para os miúdos como para nós.  Hidrata bem, dura mais e cheira melhor. Já alguém leu uma teoria que só devíamos pôr na pele produtos que se pode comer – faz sentido não é?- na verdade vai ser tudo absorvido pelo nosso organismo…
4- O champô e o amaciador passou a ser  Sólido. Tem um investimento inicial um bocado maior, mas também não é uma loucura. Não tem embalagem, tem um óptimo cheiro e faz espuma mal se esfrega um pouco no cabelo. Comprei nesta loja. Na verdade apetece comprar  (e comer) tudo . Aqui também têm a hipótese, quando os produtos são embalados e não em barra de re-encher os boiões de forma a não ter de estar sempre a comprar uma nova embalagem. Fantástico, não é?
5 – Os legumes (os que não temos na horta) são entregues em casa, à terça feira pela BOA COLABORATIVA, são biológicos e produzidos aqui mesmo ao lado. Não traz  sacos e temos a certeza daquilo que estamos a comer. Claro que é um investimento mas, na verdade, com esta forma de consumo estamos a poupar noutros lados que nos permitem abrir mão de uns euros em troca de melhor qualidade.  Temos ainda a possibilidade de acrescentar bom mel e ovos biológicos de galinhas criadas em liberdade.
6- A fruta vem da mercearia  da esquina (o cabaz da BOA traz também alguma fruta biológica, mas é tão boa que desaparece num instante)  onde damos um pulo quando é necessário.
7 – A carne (que consumimos apenas uma a duas vezes por semana) é comprada num  talho perto de nós. Já falei com o senhor do talho sobre a hipótese de levar os nossos próprios tuperwares  para poder dispensar os sacos. Para ele não tem qualquer problema. Mas ainda não o fizémos.
8 – O peixe vem da praça e, como é fresco, se for caso disso congelo-o até ao dia que o quero consumir.
9 – Os secos são comprados em quantidades maiores em lojas a granel. Feijões,  farinhas, aveias, café  e as semente para os cereais. A ideia é só ter de ir a estas lojas uma vez por mês.
10 – O que ainda mantemos no supermercado (numa ida que se tornou rápida, simples e barata):
– o arroz, a massa e o açucar.
– papel higiénico
– as charcutarias (queijos e fiambre)
– leite  e a manteiga
– a comida dos cães
– a papa da Luz
– pasta de dentes
– o weetabix do Jacinto
– vinho e cerveja
– outras coisas que me estou a esquecer ou que nos apeteça ter em casa
– as fraldas já estão mesmo a acabar cá em casa (só uma por dia!). As toalhitas já não existem.
Bem sei que, enumerado assim parece uma trabalheira de compras, foi o que pensei durante anos. Mas, na verdade, pelo facto de comprarmos em maiores quantidades e produtos que duram mais não é tão complicado como parece, muito pelo contrário. É só uma questão de integrar estes gestos na nossa rotina.
Para já, tudo o resto se mantém igual. Sempre com  alguns desvios, claro… o importante é manter o foco e deixar os sentimentos de culpa de lado.
E ter a certeza que até o mais pequeno gesto é imenso.

As férias

A serra:


Este ano trocámos a Serra da Arrábida pela Serra da Gardunha. O sul pelo norte (centro, vá). O mar pelos rios.

De indescritível beleza a paisagem beirã e de indescritível beleza a aldeia onde ficámos: Castelo Novo – uma pequena aldeia histórica perto do Fundão. Bonita como poucas, cercada de Serra  e tão arranjada que não se vê em nenhuma casa uma porta de alumínio, um papel no chão ou seja o que for que possa ferir a paisagem.

Infelizmente apesar de termos mil passeios planeados, depressa foram todos por água abaixo. Chegámos sábado, no domingo já estava a serra a arder. Segunda fomos evacuados(Pânico). Terça regressámos. Quarta estávamos perante um cenário triste e desolador: O que era verde estava negro. Onde se via vegetação restavam agora cinzas. Demos um pequeno passeio pela serra, o chão ainda quente e algumas brasas a tentarem a sua sorte para reacenderem. Ainda fizemos o que podíamos (e foi bastante) para aproveitar bem os dias que restavam da nossa semana de férias com a família. Mas o fumo e o fogo não voltaram a sair da nossa cabeça, nem dos nossos corações (até porque o fogo que por lá andou continuou a varrer tudo pela Beira abaixo). Realidade tão triste este nosso país no Verão.

A praia:

Esta é A nossa semana especial que passamos só os seis. Este ano num sítio ainda mais especial. Na verdade, se tivesse que resumir esta semana numa palavra  seria certamente a palavra “especial”. Não tínhamos rede em casa. Não tínhamos rede na praia, por isso o desligar foi ainda mais total. Embora pareça não haver muito para contar desta semana maravilhosa é, na verdade um  nada que é tudo. Praia, brincadeiras, conversas, mimos, mergulhos, pôr-do-sol, passeios na areia molhada.  Esta é capaz de ser a semana mais importante do ano para nós os  seis. Porque nesta semana nada mais existe. Só nós. Sempre juntos. Sempre todos.

A quinta:

Os anos passam e esta nossa semana nunca muda. E eu cada vez sei menos o que dizer destes dias tão bem passados no sítio onde tudo acontece. Porque nada muda. De ano para ano. Os amigos. Os cães. Os cavalos. As uvas doces mesmo ali à mão. Os figos roubados à figueira a lambuzar-nos as mãos e a boca. As bicicletas de um lado para o outro. O sol na cara e a terra nós pés. A liberdade. A praia ali mesmo ao lado. As noites quentes (muito quentes). Os mergulhos no tanque. O jogo da lotaria, que a Rita traz da sua infância e que já faz parte da infância dos nossos filhos. As tardes de ronha. As conversas noite dentro. As estrelas cadentes. Os desejos pedidos em segredo (sempre os mesmos). E as baterias carregadas. para o resto do ano (será?)!

E assim se passou o que é, sem dúvida, o melhor mês do nosso ano. (E não contei tudo, senão não sairia daqui… )