A minha experiência educativa

 

Não tive, enquanto criança, o que se pode considerar uma boa experiência educativa. Embora não fosse infeliz na escola – de todo – vivia para os intervalos mas sempre detestei as aulas em si. Embora, durante  quase toda a minha vida tenha achado que era suposto ser assim: As aulas eram uma coisa que não era para gostar. Estudar era uma coisa que se fazia a muito custo.

Tive uma professora de matemática – dizem que era uma professora excelente –  e que explicava muito bem, mas eu cá ainda hoje não sei fazer contas de dividir e desconfio que a minha falta de capacidade de falar em público venha das vezes que por ela fui humilhada a ir ao quadro, a colocar uma dúvida ou a dar uma resposta errada.

As matérias que eram dadas não me diziam nada. Decorar por decorar. Sem perceber  nada do que estava ali a aprender. Ali pelo meio haveriam,  de certeza, imensas coisas interessantes para saber e estudar mas nunca nelas reparei. Talvez pela forma como eram dadas ou talvez pelo desinvestimento e desinteresse que atribuía a tudo o que era da escola. Se vinha da escola, não interessava. Se era dado numa sala de aula então era uma seca.
E assim vivi o meu percurso educativo. Confiante que e  a escola não interessava para nada e que, mal pudesse, deixava de estudar. Nunca percebi quem ficava contente com uma boa nota pois para mim valia nada. E também depressa percebi que eu cá não era nada de especial em nada de especial e, tirando asneirar não me destacava em nada. Nem ginástica, nem matemática, nem desenho, nem música. Valeram-me os livros que li – e li tantos!

E lá deixei eu, finalmente, de estudar no final do 11º ano. Achei que ia ser DJ e que, para isso, não precisava de nenhum curso. Fui trabalhar – o meu pai tinha, na altura, um restaurante e por isso foi uma ano perfeito: servir à mesa à hora de almoço, fazer voluntariado num bairro social ao fim da tarde e… LUX à noite.

E foi aí que finalmente percebi que afinal havia uma coisa para a qual  eu tinha muito jeito: para as pessoas. E foi aí que me  apaixonei pela psicologia e  comecei a sonhar em ter esta profissão e aí sim  tornei-me numa boa aluna.  Fui fazer o  ano 0 do ISPA ( equivalente ao 12º ano)  e fui uma aluna exemplar. E ainda hoje sei bem tudo o que aprendi nesse ano. Em Biologia, em Matemática,  o Fernando Pessoa em Português. Estava verdadeiramente apaixonada pela escola – os bons professores que tive também ajudaram.

Demorou mas foi (e que pena que eu tive de ser tão tarde…) Na verdade tudo está na paixão como fazemos as coisas ou como elas nos são transmitidas (e, claro, na pertinência que  encontramos nessas mesmas coisas).  E é, para mim, sobretudo isso que esta escola tradicional não passa aos nossos filhos: PAIXÃO.

Agora que  sou mãe. E tenho três filhos em escola, com interesses diferentes, capacidades de concentração diferentes. Paixões diferentes. Tão diferentes em tudo que eles são!  E a escola continua igual ao que era na minha altura, e igual para todos.

E ok, talvez seja um assunto demasiado sério para ser retratado num video satírico em jeito de americanada rap. Mas gostei do vídeo, porque está tudo resumido de uma forma simples e  porque penso exactamente o mesmo sobre a escola – só que sem rimar.

Como é que querem que eu explique aos meus filhos que o futuro deles está dependente de um sistema com o qual eu não concordo?  Não devia ser a escola e  a aprendizagem a maior arma da nossa sociedade? Não são os professores os detentores da profissão mais importante do mundo?

Sabem o que disse um dia um professor ao meu filho que não gosta  muito da escola? Que um dia quando o encontrar na rua daqui a 20 anos ele vai estar cheio de vergonha porque vai estar… desempregado. E esta, hein? Grande estimulação de auto-estima e de paixão numa criança, não acham?

Cada vez mais se fala sobre modelos educativos alternativos e cada vez me fazem mais sentido. Mas não são esses que os meus filhos frequentam.   E lá vamos fazendo  o possível para os manter motivados. Mas depois uns gostam mais, outros menos. Uns têm professores que conseguem motivar e dar a volta ao texto e transmitir paixão.  Outros dizem disparates do tamanho daquele que contei em cima. Uns acham que estar sentado todo o dia a ouvir para uma professora e a trabalhar é óptimo e valorizam isso muito –  o que nos facilita muito a vida –  mas temos outros  que acordam todos os dias a pensar porque raio têm de  ir para a escola decorar conceitos que pouco ou nada lhe dizem transformando lentamente  a aprendizagem numa tarefa aversiva e empurrando a sua auto-estima para o fundo, assim como me aconteceu. Até me apaixonar.

Não está na altura de mudar este paradigma e torná-la uma realidade ao alcance de todos?

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Grão a grão enche a galinha o frasco

Este ano queremos retomar os incentivos pelas boas acções  dos nossos filhos. Apesar de não sermos contra um “castigo” (nome pesadíssimo para dar a uma pequena repreensão com repercussões a curto ou longo prazo) ou outro de vez em quando, sempre gostámos mais de trabalhar as recompensas. Quando eram mais pequenos fizemos estes vales que eram ganhos com estrelas. Fizemos três ou quatro rondas e depois acabámos por deixar cair, não por não ter corrido bem mas só porque estas coisas quando repetidas vezes demais perdem o impacto. Foi na altura um sucesso por aqui e, sei de muitas famílias que adoptaram este jogo e que correu bem.

Este ano a brincadeira é outra e, apesar de mais demorada há mais hipóteses por dia de serem recompensados. O que torna o desafio mais divertido.
Então é assim cada um tem o seu frasquinho (que a  Luz fez questão de pôr o nome e decorar). À noite depois do jantar vamos por grão nos frasquinhos. Quando encherem o seu frasco vão ter direito a realizar um sonho (previamente combinado com cada um e que a única regra é  não  ser nada que se compre mas sim que se faça). Para cada área do nosso dia a dia em família podem receber entre 0 e 3 grãos. Eles dizem o que acham que merecem. Nós validamos ou não – mas não é que eles são muito justos e conscientes na sua própria avaliação? Claro que o pedido feito a cada um depende da idade e o “arrumar o quarto” da Jasmim é diferente de “arrumar o quarto” do Jacinto. Para começar temos (a ideia é ir acrescentando outras áreas que nos vamos lembrando):
Portarem-se bem nas rotinas matinais – felizmente é um ponto que, quase sempre todos levam 3 grãos. Se há altura tranquila lá em casa são as manhãs, por  mais estranho que pareça. O segredo é acordarmos todos bem cedo.
– Ajudar-nos na cozinha, fazer o jantar e levantar a mesa. Tem sido uma luta ao contrário. Todos querem ajudar na cozinha, levantar a mesa etc etc. Mas confesso, pela distância que a nossa sala de jantar tem até à cozinha, nós agradecemos. Confesso que, às vezes desajudam mais do que ajudam mas tem valido a pena!
Arrumar o quarto e a roupa depois do banho. Raramente conseguimos que tenham 3 grãos aqui. Mas havemos de lá chegar… com muita calma e paciência
Birras e discussões. Depende do número, do grau e da intensidade mas, na verdade este continua a ser o grande ponto da questão. Faz parte, todos sabemos. Mas que cansa, isso cansa. A vontade de ter grãos tem ajudado a conseguirem ter algum auto-controlo quando se enervam, vamos ver quanto tempo é que isto dura.
O engraçado destes grãos é não ser estanque e se queremos pôr mais um dois grãos por alguma coisa que tenha corrido bem ou que nos apetece valorizar, é só pôr.
Não passa de uma brincadeira, mas é divertido eles estão a levar super a sério para além disso  adoram o momento de encher o frasco. Vamos ver quanto tempo levará até termos o primeiro frasquinho bem cheio para começar a realizar os sonhos.

Relativamente à semanada dos mais velhos, , como às vezes já querem ter o seu próprio dinheiro  e não somos muito a favor de dar dinheiro só porque sim, podem ler livros e em troca recebem o seu pocket money. O que recebem depende do tamanho dos livros mas, quanto mais páginas maior o valor. Na verdade não pretendemos nada de mais, apenas motivá-los para o prazer da leitura, que não é tarefa fácil hoje em dia. Tem sido maravilhoso pois  é só vê-los a começar e de repente já estão totalmente “embrenhados” na história, e viciados na narrativa que estão a viver, sem se lembrarem da parte comercial da história.

No fim compram gomas e chocolates ou vão poupando para alguma coisa que queiram comprar. Na verdade já estamos a entrar na fase de ter de pôr um travão, principalmente ao Benjamim que se puder ler um livro por dia…

Já eu… acho que pagava para poder ler mais. Ando com saudades, tantas de ler ler ler, livro atrás de livro como fazia com a idade deles! Se, na altura, tivesse recebido dinheiro por cada livro lido acho que os meus pais acabavam a viver debaixo da ponte…. 🙂

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Tornar o registo de todos os aniversários dos nossos filhos uma constante aqui no blog tem sido um desafio que se complica de ano para ano. Na verdade e com tantos anos (e com tantos filhos) fico sem saber o que dizer. Sei bem o que sinto nestes dias. A nostalgia de os ter pequeninos misturada com o orgulho de os ver crescer. Convicta que este blog é, sobretudo, para eles lerem um dia o que ia sendo partilhado do nosso dia a dia não posso deixar de assinalar os 11 anos do nosso primogénito. Foi o primeiro a nascer. O primeiro andar. O primeiro a falar. O primeiro a fazer birras. O primeiro a entrar na escola. O primeiro a dar-nos a conhece o amor de pais. O primeiro a mudar de escola. O primeiro a estar doente. O primeiro a querer ter uma PlayStation. O primeiro a quem caíram dentes. O primeiro a usar aparelho. O primeiro a perguntar de onde vêm os bebés. O primeiro a ter medo. O primeiro a pedir colo. O primeiro a ter ciúmes dos irmãos. O único com três irmãos mais novos.

O nosso filho que desbrava todos os caminhos. O nosso filho que nos ensinou (ensina) há 11 anos a ser pais. O nosso filho que vai à frente dos outros nas conquistas e nas dificuldades. Que nos mostra como isto de crescer tem muito que se lhe diga. Que nos prova que haverá sempre lugar para todos no nosso colo, seja qual for o seu tamanho ou a sua idade. Que nos desafia com as descobertas do mundo exterior. O nosso filho de pais inexperientes.

Têm sido uns 11 anos incríveis e também desafiantes. A educação não é uma tarefa fácil e temos errado muito. Mas, a verdade é que o que queremos é que eles olhem para trás e sintam que tiveram uma infância feliz. E claro, que saibam para sempre que o AMOR é o mais importante.

De semana em semana afino a situação

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Ando a tentar cumprir meu o plano anual de não ter plano.  De semana em semana penso como poderei ter uns dias mais simples mas ao mesmo tempo mais cheios. Percebi que a inércia faz-me mal. Sou mais feliz com mil afazeres, multitasking e uma lista grande  e ambiciosa de “to-do´s ” semanais. E, embora adore um belo serão deitada no sofá a ver séries (e agora com Netflix oferecido pelo meu pai, andamos viciados a ver  Stranger things – tão boa!!!) gosto de alternar estes serões com uma noite de costura, de jantares de amigos, de copos ou de tricot.
Comecei  a perceber que não tenho feito muito três coisas que sempre me deram muito gosto: correr, costurar e escrever aqui. Farta de desculpas que isto e que aquilo, resolvi pôr mãos à obra. Não posso pensar que é um compromisso, fico logo arrepiada, não me dou bem com compromissos nem obrigações, sinto-me claustrofóbica. Mas, se olhar para estas  coisas como os meus hobbies penso ” o que é que estou a fazer deitada no sofá ou a dormir mais meia hora de manhã?!
E, na verdade, pode parecer estranho, mas tenho mesmo um prazer gigante em ver as minhas tarefas cumpridas.
Em Dezembro, comprei uma flanela enorme para, com a minha cunhada Carmo fazermos umas roupas para os primos vestirem no Natal. Ela, impecável, fez uns macacões para as meninas e uns calções para o mais novo. Passámos o ano e o meu tecido ali continuava, direitinho como saiu da Retrosaria.
Comecei a pensar o que poderia fazer com aquela flanela bonita. As meninas já não gostam muito de vestir vestidos. Os rapazes usam pouco camisas . Na verdade, o que eles precisam mesmo é de camisolas, calças de fato treino e…. pijamas quentinhos! É isso!!! quem não quer um pijama de flanela portuguesa feito pela mãe?! Bem sei que, se fosse à Primark compraria um por menos de 10€. Mas não é esse mesmo o desafio? Tentar não comprar aquilo que foi, provavelmente, fabricado por mãos de crianças ou adultos explorados?? Não podemos esquecer tudo o que está por detrás desses pijamas. Nunca. Nem mesmo quando não temos alternativa e temos de os comprar temos de ter presente e estar conscientes do que  estamos a comprar.
O pijama ficou perfeito (modéstia à parte…) quentinho e confortável como se quer um pijama. Agora… tenho os outros três a quererem um igual mas, antes tenho um menino a fazer 11 anos e a pedir uma camisola azul e laranja para os anos. Por isso… parece que ainda tenho com que me entreter esta semana…
Alternando entre manhãs de ronha (ronha relativa que Às 7 horas temos de acordar) e manhãs de corrida. Entre noites de costura e noites de sofá sou, tenho a  certeza uma mulher mais feliz. Porque às vezes pensamos pouco naquilo que nos dá prazer e muito no tempo que precisamos de descansar ou trabalhar.
E por aqui… preciso da vossa ajuda! Ando sem ideias sobre temas para escrever, sinto que é tudo  repetitivo e às vezes é só isso que me faz não escrever.
Podem dar-me sugestões?

2018 ou sobre cuidar

 

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foto @luvalles

 

Tenho feito muitas coisas, parado pouco e pensado menos.
Pela primeira vez em muitos anos não parei para fazer promessas, projectos, balanços nem retrospectivas. 

Deixei o ano terminar e outro começar, devagar e com poucas expectativas. Na verdade cansei-me de dizer que não tenho tempo, que as coisas não têm estado fáceis, que agora é que vai ser. Ainda não percebi se tenho tido pouco tempo, se ando mais desorganizada ou se, simplesmente não me apetece.
2016 foi um ano muito mau. Adorei vê-lo pelas costas. 2017 vinha previsto com um grande ano. E foi. Mas tão diferente do que eu previ. Porque os imprevistos não se planeiam nem se desejam quando um ano começa. Então fiquei a pensar que este ano não me apetece fazer planos dia 1 de Janeiro que sei que não vou cumprir.
Quero fazê-los ao sabor do tempo, de semana em semana,  de mês em mês. Apetecia-me prometer que vou correr mais, escrever mais aqui, ler mais, costurar mais. Contar mais histórias aos meus filhos. Mas não me apetece planear nada com um prazo de um ano. Quero fazê-lo devagar e sem pressões.
Então 2018 traz apenas um objectivo: CUIDAR. De mim, dos meus, dos outros e do planeta.
E ter neste cuidar toda a minha vida.