Querido diário, dia 11

Quando o dia começa com o Ringo a fazer um cocó no tapete e o Lucas a pisar esse mesmo cocó com os dois pés e com collants, é porque, de certeza tudo vai correr bem.


Foi um dia confuso, mas bom. Estive sozinha com os 5 até irmos dormir. Por isso, não só não me lembro bem de tudo o que se passou ao longo do dia, como passei de feliz a infeliz em poucos segundos várias vezes ao dia e de mãe querida a mãe besta em poucos segundos também.
De manhã intercalámos entre reuniões deles e minhas. As minhas estão a ficar cada vez mais confusas com eles em legalize it a entrar no meu ecrã. Caos.
Felizmente o jantar de ontem tinha sobrado pelo que, não tivémos de fazer o almoço. Menos uma tarefa, oh yee!


Quando o Lucas foi dormir elas quiseram fazer Lemoncurd: temos kilos de limões e a Luz adora cozinhar e adora tudo o que é de limão. Praticamente o fez sozinha. Quando ficou pronto – e porque tenho pensado muito que, sobretudo os rapazes precisam de andar, pedi-lhes que fosse a pé até casa da avó para dar um frasquinho com o lemon curd. Uma forma de matar saudades da avó – as meninas fazem, os rapazes entragam. \
Depois elas pediram-me para fazer barro e, por isso, fomos dar uma volta a pé para comprar uma embalagem de barro que seca ao ar – ensinou-me a Tanica e tem sido um sucesso cá em casa, tem qualquer coisa de relaxante mexer em barro. (Acho que assim que o mundo o permitir vamos as três aprender a fazer barro a sério.)
Quando voltámos ainda estivémos um bocado no jardim, mas pouco. Está frio e molhado não há nada de especial para fazer.


Com o fim do dia confuso – estou habituada a ter sempre o Francisco comigo no final da tarde por isso, quando ele não está fico completamente desorientada. Como um dia não são dias, encomendei dois frangos assados do chiquinho – mesmo bons. Adoraram e portaram-se super bem. O Jacinto fica super responsável e adora fazer o papel do pai, quando ele não está (é uma grande ajuda mesmo)
A seguir ao jantar, estive horas para conseguir que o Lucas adormecesse, quando se ficou já estava eu quase a dormir. Fui para a sala ler um pouco, a Luz e a Jasmim estavam a fazer barro super calminhas e o Jacinto e o Ben nos telemóveis a falar com os amigos. Claro que, quase que não li. Levei-as para a minha cama e dormimos as 3 bem apertadinhas até o Francisco chegar e levá-las ao colo para a cama. E assim se passa um dia que começa com m#rda no tapete!

Querido diário, dia 10

Estranho dizer dia 10. Diria que era o dia 3.


Os dias passam, uns melhores e outros menos bons. Não vejo noticias e isso ajuda a ver o mundo mais cor de rosa. Acompanho notícias mas nunca telejornais. Apesar disso, nem tudo é cor de rosa nesta quarentena. Vou partilhando dificuldades e faço um esforço para mostrar o lado bom, que de lados menos bons já está o mundo cheio. E imagino as diferentes dificulades que cada casa está a passar nesta fase. Os que estão sozinhos. Os que perderam projectos de vida. Os que perderam alguém. Os que estão na linha da frente. Os que têm casas pequenas. E os que não têm casa. Aqui em casa temos tudo. Boa casa, jardim. Companhia de um par. Alegria de crianças. Emprego. Mas às vezes os dias também podem ser dificeis. Porque queremos não falhar a nada (e é muita coisa).

Hoje enervei-me com eles, estavam a discutir enquanto tentava escrever um mail. Gritei. Zanguei-me, disse-lhes que eles eram injustos que não me deixavam trabalhar. E depois tive vontade de chorar um bocadinho. Mas não há espaço. E, logo à seguir ficou tudo bem outra vez: Fomos almoçar e depois fomos brincar. Como se nada se tivesse passado.


Até porque o dia tinha começado mesmo bem – com uma corridinha cedo (agora aproveito o dia de banho para uma corrida matinal) uns ovos com abacate e pão preto maravilhoso feito pelo Francisco.

Tive de sair de manhã para ir a mercearia – falta sempre qualquer coisa – não imaginam a rapidez com que a fruta ( e tudo) desaparece nestes dias.


O Lucas fez uma sesta mínima o que significou aparecer-me ensonado a meio de uma reunião – acho que já ninguém leva a mal e está misturada entre mãe, dona de casa e executiva no mesmo horário.
O resto da tarde foi mesmo mesmo bom. Brinquei muito com os meus filhos mais pequenos. Consegui dar alguma atenção aos meus filhos mais velhos. O Francisco conseguiu trabalhar quase todo o dia – o que tem sido raro. O jardim tem feito muita falta, mas a verdade é que tem estado tudo molhado e desagradável.

Foto da Luz


Hoje não havia banhos, por isso, arrumar a casa e fazer jantar com música bem alto. Ao serão jogámos um “código secreto” com os rapazes e, quando eles se foram deitar ainda vimos um episódio da série que estamos a ver (estamos a ver o twin peaks… sempre muito modernos ahaha)


Foi um dia bom.

Querido diário, dia 9

Hoje logo cedo acordámos os filhos todos, não porque tenham compromissos mas porque tem sido infernal o tempo que demorar a adormecer à noite – e nesta fase, mais do que nunca, precisamos do serão para ter um tempo para nós.

Hoje tinha um compromisso fora de casa (depois conto). Claro que nem vou falar da sensação de fazer a auto-estrada de manhã com a música aos berros- se dantes já era um momento maravilhoso, nos tempos que correm é tão bom como a ir à Jamaica.

Quando voltei juntei-me a eles que já estavam a almoçar com o Francisco. Hoje havia já umas amostras de aulas em zoom. Por isso enquanto o Benjamim tinha uma aula de piano (têm corrido muito bem as aulas dele em zoom: pelo menos pode ver a cara do professor, coisa que nunca tinha visto). Também a Luz tinha um encontro com a turma por zoom, que começou 5 segundos depois de eu terminar a minha reunião também – mesmo a tempo porque só (?) temos dois computadores.

A Jasmim recebeu umas canetas novas então que teve uma boa parte da tarde a pintar com elas. Desenhou, entre outras coisas um arco-íris (deve querer dizer alguma coisa! )

Quando o Lucas acordou estivémos horas a brincar, ele está demais: adora brincar com os playmobiles e desta vez inventei uma brincadeira onde o meu boneco era a sininho e o dele o Peter Pan. Havia um capitão gancho e um dinossauro que temos cá era o .. crocodilo… tic tac tic tac. O que ele amou esta brincadeira. Estivémos uma boa hora ou mais assim. (Cada vez que eu tentava sair do quarto “oh mamã..—oh oh mãe linda…. anda!!!!” )

Fim do dia: banhos, jantar e arrumar a casa. Os rapazes ainda jogaram uns quantos jogos de setas. Segunda é dia do Jacinto por a mesa.

Tinha uma apresentação para terminar e, como tem sido difícil durante o dia, resolvi ficar a fazê-la à noite. Bebi um café depois de jantar o que teve o mesmo efeito de um speed: Trabalhei até às 2 e quando fui para a cama ainda tive a ler até às 3!

Querido diário, dia 8

O domingo a ser domingo.

Acordar tarde, ronha até ainda mais tarde, pequeno almoço molengão. Esteve um dia cinzento pelo que aproveitamos para … não fazer nada. Ainda antes do meio dia vimos todos juntos o primeiro Senhor dos Anéis – um dos family favs– enquanto o Lucas dormia no meu colo. Confesso, momento alto do dia (e da vida). No sofá com um bebé a dormir ao colo, todos os outros filhos, marido cães e gato enroscados em mantas à 1 tarde enquanto a chuva bate no vidro. Maravilhoso, certo?

Almoçamos perto das 4 mas super a séria, fiz bifes de frango com batatinhas no forno e salada. Um desnexo para a hora que era. Mas soube bem. Um dia todo com horas maradas. É o que eu digo: domingo de chuva a ser domingo de chuva (com upgrade confinamento)

Durante o resto da tarde jogámos vários jogos, fizemos uns queques de limão e pouco mais. Não houve Videojogos para ninguém por isso, dentro da molenguisse foi um dia mesmo mesmo bom. A diferença que é podermos estar 100% dedicados a eles vê-se nas pequenas coisas: O dia passou alegre e (quase) sem zangas, nem tive tempo ou ideia de tirar fotografias.

À noite, apesar da dificuldade de todos eles para adormecer , entre dor de ouvidos, copos de água e cães e gatos a trepar para as camas, para nós é sempre um clássico: #pizzaéaodomingo – nunca falha – e vimos um filme maravilhoso: Paterson

Querido diário, dia 7

Hoje o dia prometia. Sábado, sem compromissos, sem planos e sem chuva.

Acordei com o Lucas enquanto toda a casa ainda dormia. Adoro o silêncio da casa ao fim de semana quando todos dormem. Uma ronha no sofá, um scrollzinho pelo telemóvel enquanto o Lucas via o Mickey. 8.30, temos um cão com 6 meses, talvez já precise de ir à rua. Troca o roupão por um casaco e.. voilá.. fui à rua de pijama (e chinelos) Que sensação de liberdade, não é? Não me cruzei com ninguém mas tive até pena. Estava tao feliz no meu outfit que apetecia-me ter visto alguém “olha vez são 8 da manhã e é sábado e estamos confinados e por isso eu estou de pijama no meio da rua a passear os cães, ali em casa tenho 5 filhos que ainda estão a dormir, posso fazer o que eu quiser!”

Quando voltei, claro já tinham começado a acordar. Ninguém comentou eu ter ido de pijama à rua. Voltei a trocar o casaco pelo roupão e fui preparar o pequeno almoço.

Fim de semana pequeno almoço completo. Crepes, ovos quentes e claro café acabado de fazer.

Logo depois estivemos algum tempo no jardim. No inverno o jardim, mesmo com sol não tem assim tanto que fazer mas, entre pintarem no atelier do Francisco e umas voltas de trotinete estivemos bem entretidos. Ainda por cima fiz um negócio com os rapazes (sempre a negociar): “Se querem jogar logo à tarde, arranjam a horta toda, ervas daninhas, urtigas etc” . E o que eles gostaram ? Acontece muito com eles.. vão contrariados mas depois adoram. É importante contrariarmos esta sua contrariedade.

Só voltámos ao jardim ao fim da tarde. O resto do dia estivemos em casa (o francisco ficou no atelier). Estiveram tão entretidos a brincar aos playmobiles que nem pus o Lucas a dormir a sesta.

Mais à tarde, organizei o “jogo das taças” com a Jasmim. Várias taças com ingredientes lá dentro e têm que adivinhar, com olhos vendados, o que la está. Giro, mas acho que escolhi ingredientes muito fáceis. Adivinharam tudo.

Depois ainda voltámos ao jardim, um frio de rachar mas ainda fizemos uma caça ao tesouro improvisado (ou seja, só esconder o tesouro e ir dizendo “quente, morno, frio“)

Ao sábado à noite fazemos sempre um jantar a dois. Miúdos jantam mais cedo e vão ver um filme no quarto enquanto nós fazemos uns petiscos, jogos, minis e vinho. É uma verdadeira bolha de oxigénio, seja em tempos de quarentena ou não .